“O Meu Mundo Não é Deste Reino” de João de Melo

o_meu_mundo_nao_e_deste_reino

É sempre muito bom quando, ao terminar um livro, se fica com a certeza de que aquela foi apenas uma primeira leitura; de que mais tarde, algures num tempo ainda indefinido, se voltará a pegar nele para o ler novamente de fio a pavio ou simplesmente para recordar passagens favoritas. Foi exactamente isto que aconteceu com “O Meu Mundo Não é Deste Reino”, o meu primeiro encontro com a obra de João de Melo. Sim, provavelmente estarão a pensar: “Mas como? Não leu “Gente Feliz com Lágrimas”? Parece impossível!” (isto partindo da premissa que alguém lerá estes gatafunhos) Não, não li. Apeteceu-me antes começar por este porque tanto o título como a sinopse me atraíram muito mais e não poderia estar mais feliz (sem lágrimas) com a minha escolha. Raras vezes me deparei com um livro de tão grande humanidade combinada com uma imaginação desbragada. Esta encontra-se patente nos múltiplos prodígios engendrados pelo autor através dos quais vamos acompanhando as histórias de uma galeria de personagens arquetípicas, como que emergentes das brumas salgadas da Ilha, incluindo o padre, o regedor, o presidente da Junta, o lavrador rico, o lavrador pobre e espoliado, a mulher diligente e fiel, a bruxa, a mulher vítima de violência doméstica, a prostituta, o curandeiro, o inventor, o professor e o adolescente em turbilhão. O tempo da narrativa também brinca com o leitor através de saltos inquietos, para trás e para a frente, sempre algo indefinido, contribuindo para adensar os mistérios que se vão desenrolando. A cronologia torna-se assim igualmente brumosa e condizente com a atmosfera quase sempre melancólica do romance onde, por várias vezes, os mundos dos vivos e dos mortos se cruzam. Através da prosa encantatória, amiúde lírica, muitas vezes irónica e acutilante, de João de Melo cumpre-se um percurso feito de etapas familiares, as mesmas desde o início dos tempos: vida e morte, alegria e tristeza, ganância e pobreza, bondade e crueldade, amor e ódio, infância e velhice, permanecer e partir. A singularidade está no entrecruzar das vidas das gentes com a geologia da Ilha, caprichosa, irrequieta, volúvel no seu telurismo vulcânico, quase como uma divindade criadora, responsável tanto pela abundância da vida como pela fome e pela morte.

Assim, completa-se o círculo e volta-se ao início; vejo-me a voltar a “O Meu Mundo Não é Deste Reino” de vez em quando, para reler as muitas passagens que me cativaram, para recriar um pouco do espanto e do prazer da primeira leitura, acrescido do bónus de ler um português isento de novas invenções ortográficas aberrantes. Por tudo, muito obrigada João de Melo!

Excerto:

“No dia seguinte, quando amanheceu, assistiram lá de cima ao nascer do Sol. Vindo do fundo do mar, de muito longe, de entre balões de nuvens e faixas douradas de luz, o Sol mais não seria do que uma rosca luminosa que progredisse para o alto, até se aplainar por cima da Ilha e sobre ela deslizar ao longo de um dia, como a esfera projectada para o espaço pelo braço de um lançador. O movimento aparente do Sol assemelhava-se ao da espiral celeste a abrir-se e a rasgar o espaço das sombras espalhadas pela Ilha. Vales, profundamente rachados para o meio da terra, iluminaram-se nas suas fracturas. Também se abriram à luz da manhã os sítios onde os vulcões estavam extintos, assim como os ninhos dos sismos e dos terramotos, assim como as crateras, os pauis, a água corrente das ribeiras, assim como os enrugados da lava raspada pela erosão ou pelas incomensuráveis mãos de Deus. E grandes são as lagoas, de uma cor sem cor, meu pai, com pedras empinadas no meio da água e do silêncio sombrio, e direitas e muito afiadas as árvores com os seus pássaros pousados no silêncio, os pássaros, e ainda e sempre os pássaros da nossa Ilha, tão bela e a perder de vista. José-Maria nunca pudera imaginar-se um habitante de um lugar assim, primitivo na sabedoria e distante na sua ignorância acerca dele. Nunca soubera imaginar que, passando os montes e a cordilheira, podia ver-se de novo o mar, agora do lado oposto ao Rozário, sentado numa pedra lisa como vidro mas raspada pela chuva. Nunca pudera imaginar um mundo assim, com duas faces iguais até na aparência, com o mesmo mar infinito pela frente e uma Ilha com memória de animal cujos membros se tivessem transformado em raízes e acabassem por mergulhar também no fundo da água.
– Como imaginar uma Ilha tão bela como a nossa, tão altiva e mil vezes maravilhosa até na sua solidão, meu pai, e ao mesmo tempo tanta gente em sofrimento nela durante toda a vida, quando é certo poder ter sido aqui o Paraíso dos nossos pais da Bíblia, antes de Eva ter pecado?
Tomando Maria Água pela mão, encostou-se muito a ela e disse:
– Toda a gente e todos os povos e países têm o seu deserto de areia, umas vezes à frente dos olhos e debaixo dos pés até, no território por eles escolhido para morar; outras vezes, vertido para dentro de si, quando olham e descobrem que trazem na alma o cântico negro da sua solidão de muitos séculos, passada de pais a filhos e novamente de filhos a outros filhos de outros homens. Os povos deste mundo, mesmo os mais conquistadores e bárbaros, nunca disputam entre si a terra, apenas se invadem na sua solidão. “

Anúncios

2 pensamentos sobre ““O Meu Mundo Não é Deste Reino” de João de Melo

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s