As Histórias Que Não Se Contam – Susana Piedade

as-historias-que-nao-se-contamAntes de começar esta leitura fui ver as opiniões do Goodreads, coisa que dou por mim a fazer cada vez mais. As Histórias Que Não Se Contam foi publicado recentemente e, há duas semanas, contava com dois pareceres, um deles com cinco estrelas e o outro sem qualquer estrela, uma leitura que ficou pela metade.

Gosto de livros que provocam opiniões divergentes e, como tal, não podia ter ficado mais entusiasmada para o começar a ler.

A escrita cuidada agradou-me de imediato, assim como um certo mistério que foi dando alento ao virar das páginas. Li todo o livro com uma necessidade constante de perceber. Primeiro queria perceber as histórias de Ana, Isabel e Marta. E depois, mesmo já tendo percebido os motivos de cada uma delas para o sofrimento atroz em que vivem, faltou-me compreender. E mesmo agora, com o livro lido, não compreendo. Nem aceito que a vida possa trazer dor tão imensa. Possivelmente é por isso que estas histórias não se contam.

Uma das histórias mexeu comigo particularmente. Acho que não é spoiler, mas se quiserem partir para a leitura completamente a zero, parem por aqui.

Marta é vítima de violência doméstica. É uma pessoa tão boa, que o facto de ser agredida com violência quase diariamente, arrasou comigo. Ninguém merece ser agredido, quer seja bonzinho ou nem por isso, mas o contraste está tão bem conseguido que é impossível não adorar a Marta e não sofrer por ela e com ela. E quando digo sofrer é mesmo à séria, é perder o sono e dar voltas na cama como se a Marta fosse minha amiga ou a vizinha de baixo, como se existisse na minha vida. Agora existe e não a vou esquecer. Em algumas noites tomei consciência que não podia continuar a ler, se queria dormir teria de optar entre o livro e uma noite de sono.

Susana Piedade estreia-se com um livro que não deixará o leitor indiferente. A escrita é elegante e desempoeirada, as frases formam-se de forma bonita, proporcionando uma leitura com ritmo que não apetece largar. A estrutura, pensada, vai unindo as três histórias devagar, aproximando as três mulheres, permitindo algumas divagações ao leitor, fazendo-lhe nascer vontades de decidir os rumos. É preciso mergulhar numa história para a querer mudar, para se permitir zangar e sofrer. Quem gosta de ler deseja esse mergulho, deseja sentir amores e ódios e, por vezes, uma raiva de fechar o livro. Para o abrir depois de respirar fundo.

As minhas estrelas já brilham lá no Goodreads e são quatro. Há apenas um detalhe que me inibiu de atribuir as cinco estrelas: eu gostava de ter sentido a voz individual de cada uma das mulheres. O livro é escrito na primeira pessoa e eu não senti que houvesse diferenças no estilo ou no discurso, no fundo é quase como se Ana, Isabel e Marta falassem com a voz do narrador, mesmo este não existindo. Pode ter sido intencional, e até se compreende, pois ajuda a tornar mais fortes os elos comuns (que existem, acreditem), mas a mim fez-me falta, senti a necessidade de as identificar, de não as confundir.

Penso que escrever um livro é sempre um acto de grande coragem. Mais ainda quando se expõem temas dolorosos, como os aqui narrados. A autora é assertiva, escreve de forma incisiva e envolvente, sem nunca resvalar para a “história da desgraçadinha”, nem provocar a lágrima fácil.

São histórias que se contam. Têm de se contar. E têm de ser lidas.

Sinopse

“Ana pergunta-se como seria hoje o seu dia-a-dia se tivesse sabido detetar no namorado os indícios da doença que o levou inesperadamente. Isabel, seis meses depois da tragédia que lhe virou a vida do avesso, ainda se sente culpada por não ter chegado a horas ao infantário naquela tarde de chuva. Marta, que ousou abandonar, ainda adolescente, uma casa onde era maltratada, não tem agora a coragem de confessar que o amor em que apostou tudo está longe de ser um mar de rosas. São três mulheres jovens, com a vida inteira pela frente, mas para quem o presente se tornou um fardo difícil de carregar e o futuro um tempo sem qualquer esperança. Quem poderia entender a sua dor incomparável? Para quê, então, contarem as suas histórias?
Um acidente acabará por cruzar estas três desconhecidas num lugar onde muitas vidas se perdem, mas que para elas representará sobretudo o nascimento de uma amizade que lhes vai permitir lutarem contra o sofrimento e recuperarem aos poucos o ânimo e a vontade de viver. Porque quanto maior é o drama, maior tem de ser a partilha.
Com uma linguagem cuidada e uma estrutura francamente original, este belíssimo romance de estreia, finalista do Prémio LeYa em 2015, traz para a cena questões de grande atualidade que afetam muitas mulheres e não devem ser silenciadas, e lê-se de um fôlego, mantendo o suspense até à última página.”

Oficina do Livro, 2016

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