Fun Home, Uma Tragicomédia Familiar – Alison Bechdel

funhomeLer é, de facto, uma experiência maravilhosa. E o que mais me encanta é o tanto que ainda tenho por descobrir. É certo que bate uma certa tristeza pelo tempo, que é sempre pouco para tudo o que há para ler, mas ter consciência das possibilidades inesgotáveis de leitura inquieta-me de prazer, em vez de me deprimir.

Podia pensar que é tarde para começar a ler géneros novos, na medida em que essa curiosidade já me devia ter surgido, mas possivelmente, tudo terá o seu tempo. Depois de Fun Home, uma Tragicomédia Familiar, estou certa de que outras novelas gráficas estarão no meu caminho.

Passei tantos anos presa às palavras que nunca parei para observar outras formas de ler. E nem dizerem que uma imagem vale mais do que mil palavras me tinha feito parar mais de um minuto a escutar tudo o que um desenho pode ter para contar. E foi assim que me deixei levar pela história de Alison Bechdel, que é também a história deste livro.

Claramente autobiográfico, Fun Home revela coragem ou loucura. Ou talvez ambas. Eu acho que é preciso coragem para expor a história da própria família de forma tão clara, abusando do sarcasmo sem temer cair na bizarria. Só uma loucura associada a quem não tem medo, ou o perdeu por necessidade de libertação, permite embarcar numa aventura como esta.

Tudo captamos pelo olhar de Alison (personagem que tem o mesmo nome da autora e não é coincidência), desde a infância até aos dezanove anos, altura em que o pai morre num acidente. Alison é uma menina observadora que vive com os pais e os dois irmãos. Dá-nos a visão de uma família individualista em que os membros se isolam nos seus próprios interesses criando muros entre si. É como se no seu percurso como família se fossem afastando todos uns dias um pouco mais, e quando Alison descobre pormenores do passado dos pais a surpresa atinge-a como um raio, forçando-a a reescrever todo um perfil e tentando encaixar os novos dados nas figuras materna e paterna. Com os anos tende a aproximar-se do pai. A necessidade de se assumir como lésbica coloca o pai no outro lado do espelho (ou dentro do armário) pela sua homossexualidade reprimida. Bruce deixou de esconder as suas preferências da mulher que, conhecendo as aventuras do marido, se refugia numa máscara de indiferença direcionando as suas energias para as peças de teatro que estuda e ensaia sofregamente. A relação de Alison com a mãe é distante, e se ao assumir-se como lésbica aumentou o fosso entre as duas, estreitou, por outro lado, a relação com o pai. Mesmo mantendo a habitual frieza familiar, pai e filha tornam-se grandes parceiros de leitura, partilhando recomendações e opiniões.

Os livros assumem um papel incrível nesta história, chegando mesmo a pautar o percurso das personagens, fieis aos autores que admiram e deixando-se envolver na narrativa de modo intenso e, acima de tudo, real.

Fácil seria resumir este livro como as histórias de uma família de loucos, mas seria incrivelmente redutor. Além disso seria deitar fora todas as extraordinárias análises comportamentais de uma família que é praticamente um laboratório social.

Observar os desenhos provocou-me emoções que habitualmente associo às palavras, e os textos aparentemente curtos confirmaram ser o complemento na medida certa para viver a história.

Recomendo que descubram as tragédias dos Bechdel. Que se envolvam e surpreendam. Que se choquem com a ironia refinada que traça uma linha ténue entre o drama e a comédia.

Sinopse

“Best-seller internacional e obra pioneira, Fun Home descreve a relação frágil que Alison Bechdel manteve com o pai ao longo da sua infância e adolescência. Na sua narrativa, a história íntima e pessoal de uma família transforma-se numa obra cheia de subtileza e poder. 

Exigente e distante, Bruce Bechdel era professor de Inglês e dirigia uma casa funerária – a que Alison e a família chamavam, numa pequena piada privada, a «Fun Home». Só quando estava na universidade é que Alison, que recentemente admitira aos pais que era lésbica, descobriu que o pai era gay. Umas semanas depois desta revelação, Bruce morreu, num suposto acidente, deixando à filha um legado de mistério, complexos e solidão.”

Contraponto, 2012

O livro não tem indicação do nome do tradutor

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