Teoria dos Limites – Maria Manuel Viana

 

O que é e7afe-teoriadoslimites-mmva realidade? Para cada um de nós, é a percepção que dela temos. E como é construída essa percepção? Maria Manuel Viana parte da teoria das mónadas, de Leibniz, para propor uma construção teórica que, ela mesma, não pretende ser mais do que uma das possíveis formas de ver a questão.

E se cada um de nós fosse uma mónada, uma partícula simples e minúscula que funciona como um espelho, conjugando tanto as imagens reflectidas pelas outras mónadas que a rodeiam como as que formam a sua própria essência? Assim, a nossa concepção do mundo seria formada por uma combinação das nossas próprias percepções com as percepções daqueles com quem contactamos; mais: a nossa natureza de espelho multifacetado permitir-nos-ia ter uma imagem prévia das diversas reacções possíveis a uma situação e escolher entre elas, optando entre uma atitude e o seu oposto; e mais ainda: poderíamos transitar de uma opção para outra por influência de qualquer circunstância fortuita e, no limite, entre o ocorrido e o que poderia ter ocorrido.

Este é, obviamente, um ponto de partida sublime para a construção de uma obra literária. E a autora aproveita-lhe todas as potencialidades, apresentando-nos as vivências diferentes mas complementares de um mesmo acontecimento (a morte de um familiar) pelos diversos membros da família, e, de caminho, tecendo um verdadeiro tratado de filosofia acerca da construção da personalidade, das opções de vida, dos afectos, da auto-estima, e, claro, dos limites… dos limites nas suas mais variadas acepções.

Não houve um único ponto da leitura desta obra em que não me tenha sentido a aprender e a enriquecer-me. Foram muitas as vezes em que tive de repetir a leitura de frases para lhes apreender o sentido e as implicações, e não tenho, de modo algum, a pretensão de ter compreendido tudo. Mas, apesar da complexidade do tema, da repetição dos mesmos factos vistos por diversos ângulos e das referências filosóficas que ultrapassam em muito a minha bagagem cultural, desde Leibniz aos filósofos chineses, nunca experimentei um momento de cansaço ou de esmorecimento de interesse. A autora sabe como ninguém despertar a face inquisidora do leitor e confrontá-lo com dúvidas e questões que o impelem a prosseguir nesta descoberta surpreendente cada vez com mais avidez.

Deixo aqui apenas uma das dúvidas que o livro me suscitou: se a justificação para a literatura ser apelidada de “experiência dos limites” ou “experiência limite” é o facto de a literatura ser uma experiência sobre os limites, e se a realidade é muito mais inverosímil do que a ficção, não será antes a vida a “experiência dos limites” ou “experiência limite” por excelência, e não será a literatura antes uma mónada da vida, reflectindo-lhe as diversas cambiantes, combinando-as, permitindo a opção entre elas e até a substituição das que foram pelas que poderiam ter sido? E, no entanto, não será a própria vida constituída por mónadas e, como tal, também influenciada pela literatura?

 

Excerto:

“Os mundos não são paralelos, essa é uma imagem de má ficção científica. No final do século XVII, Leibniz, o filósofo de quem partem todas estas construções, escreveu um livro, a Teodiceia, onde, para exemplificar a noção de livre-arbítrio, propõe que se imagine uma pirâmide, a que chamou o palácio dos destinos, dividida por uma espécie de andares, em que cada um dos habitantes pode ver o seu duplo, todos os seus duplos, uma infinidade de duplos e seguir as atitudes e acções desses outros antes de escolher as suas. É por isso que se chama a Pirâmide dos possíveis, sendo que a base tende para o infinito, onde se acumulam os mundos imperfeitos, e o topo é o mundo absolutamente perfeito. Não tem, portanto, nada a ver com planetas ou mundos habitados por aliens ou marcianos à espera de uma oportunidadezeca para invadirem a terra e se tornarem donos do mundo.” (pág. 123).

 

Teodolito, 2014

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