Submissão – Michel Houellebecq

Um dia, ouvi o seguinte comentário acerca de um livro de Houellebecq: “Já sei que me vai irritar, mas não vou conseguir não o ler.” Na altura, não percebi o motivo de tanta irritação. Agora, depois de ter lido algumas obras deste autor, julgo começar a perceber: o problema está no seu talento para submissãodesenhar retratos crus de vidas com as quais é muito provável que o leitor se identifique, pelo menos neste ou naquele aspecto, revelando-lhes as fragilidades, os dilemas e muitas vezes o desencanto que lhes está subjacente. Ora, ninguém gosta que lhe arranquem a máscara de palhaço feliz… daí a face mal-amada de Houellebecq, com a qual, aliás, ele parece conviver bastante bem.

No meu caso, esta atitude provocadora tem um efeito um pouco diferente, talvez devido à minha eterna predilecção por quem se atreve a agitar as águas: diverte-me e, sendo levada a cabo por um escritor tão magistral como este, faz muito mais do que divertir-me: fascina-me. Não é todos os dias que deparamos com uma caricatura, aplicável a nós e/ou a alguns dos que nos rodeiam, realizada com tal mestria, construída com um tal domínio da palavra escrita, que nos maravilha ao mesmo tempo pela agudeza do raciocínio e pela excelência da forma literária.

Neste livro, Houellebecq volta a aplicar a fórmula que o celebrizou e o torna inimitável: pega num tema actual (aqui já não o liberalismo, mas o islamismo), começa por abordá-lo da forma comummente aceite, e depois, com uma subtileza admirável, vai deixando uma pista aqui, outra ali, uma interrogação subentendida, a sugestão de um efeito perverso, um pormenor com implicações imprevistas… e, quando damos por nós, estamos de livro suspenso no ar, com o olhar perdido no espaço e a mente em turbilhão, questionando tudo o que sempre demos por adquirido, levantando hipóteses impensáveis, estabelecendo relações nunca antes enunciadas entre conceitos e transportando vivências da esfera política para a das relações interpessoais e vice-versa, num delírio de intercâmbio entre causas e efeitos que não conseguimos interromper; nem queremos fazê-lo, porque, numa época em que tudo é servido pré-pensado, pré-mastigado e pronto a engolir sem o menor esforço, é refrescante encontrar algo que nos abane e nos recorde que o pensamento não está morto – nem o nosso, nem o de quem escreve para nosso deleite.

O que mais me admirou ao concluir a leitura deste livro foi, não só a coragem do autor em superar, mais uma vez, a sua já proverbial audácia, ousando enveredar por caminhos em que poucos se aventurariam, mas também a ausência das habituais reacções de indignação perante o que seria a interpretação mais óbvia da obra, e que é oferecida de bandeja a quem queira fazer dela uma leitura apenas superficial. Quase se consegue ver o sorriso irónico do autor ao estender ao público um prato de fast-food requentada, instigando as reacções de dignidade ofendida dos gourmets de pacotilha, para só depois lhes chamar a atenção, com a maior candura, para a cegueira que acabaram de demonstrar: “Tem toda a razão, meu caro, só foi pena não ter reparado no filet mignon que estava escondido aqui por baixo…” Só vejo uma explicação para esta parcimónia no rasgar de vestes: os leitores ligeiros já desistiram de ler Houellebecq…

Como não adorar Houellebecq? Eu cá não sei. Só sei que vou reler o Extension du Domaine de la Lutte com a maior urgência (é o meu livro preferido dele, mas não sei se já está traduzido em português; infelizmente, julgo que não). Há poucos prazeres mais requintados do que o de seguir o pensamento de uma alma rebelde, inquisidora e inconformista, exposto com clareza e inteligência. E o de continuar, dias e dias depois de terminada a leitura, a reflectir sobre as problemáticas levantadas, recordando pormenores que à primeira vista não eram muito relevantes, mas depois, no quadro de tudo o que foi dito, desatam a apontar em direcções totalmente inesperadas. O que se pode pedir mais de um livro?

 

Sinopse:

(…)

Submissão convida a uma reflexão sobre o convívio e o conflito entre culturas e religiões, desafiando a relação entre Ocidente e Oriente e entre cidadãos e instituições. Um romance que, como é habitual nas obras do autor, se adianta ao seu tempo e coloca questões prementes, hoje mais relevantes do que nunca. Michel Houellebecq confirma-se nestas páginas como um pensador temerário, capaz de detectar as grandes tensões do nosso tempo, interpretando-as com lúcida ironia.

Uma fábula política e moral surpreendente, Submissão é o romance mais visionário e simultaneamente mais realista de Michel Houellebecq.”

 

Alfaguara, 2015

Tradução de Carlos Vieira da Silva

 

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