Materna Doçura – Possidónio Cachapa

maternadocuraLi Materna Doçura no fim-de-semana. Poderia tê-lo lido apenas no sábado, pois é daqueles livros que não apetece largar e que se lê com um prazer constante, que não esmorece.

Apesar de me ter sido muito recomendado eu não sabia nada sobre o livro. A capa e o título não me suscitaram especial interesse, e acabei por tirá-lo da estante um pouco por acaso. Li algures que vai ser adaptado ao cinema e talvez tenha sido esse o impulso que me fez abrir a primeira página. E depois disso sentei-me confortável para saber tudo sobre Sacha, que é apresentado, logo no primeiro capítulo, como um adulto recém-chegado à prisão.

Sacha é o fio condutor desta narrativa. Todas as personagens vão, inevitavelmente, movimentar-se na sua esfera, e fazer as suas histórias parte da história dele. O autor joga muito com o acaso, ou talvez com o que nos queira fazer julgar acaso, como o encontro que Sacha tem, em criança, com o Professor. O encontro destas personagens centrais é fundamental pois, mais tarde, quando cada um deles achar que nada lhes resta, contarão um com o outro. Nenhum substituirá o amor maternal para sempre perdido (para ambos), mas serão o que mais próximo se poderá considerar uma família.

Esta será uma abordagem muito superficial de uma relação que poderia ser a de um pai e de um filho, mas que na verdade nunca o é. Não sei que laços pode criar a ausência e a saudade, mas haverá entre eles a compreensão mutua de quem partilha a dor do amor incondicional interrompido. Ambos perderam as mães.

Esta é a premissa. O resto são surpresas. E Materna Doçura reserva muitas reviravoltas surpreendentes, algumas mesmo inacreditáveis, que me foram fazendo arregalar os olhos e suspirar “não é possível”. Mas é. Neste livro não há impossíveis e eu adorei viver nessa deliciosa ficção de acreditar piamente no inacreditável.

É uma homenagem incrível ao amor. O das mães, pois claro. Para a materna doçura não há sexo ou idade, está para além da vida ou da morte, e chega até nós através deste livro extraordinário sem nunca (mas nunca) cair na pieguice. E isso é obra. É obra tratar um tema bonito, que mexe com emoções profundas, sem resvalar para a lamechice ou provocar a lágrima fácil.

Materna Doçura provoca sorrisos. Muitos. É uma beleza. Leiam-no!

Sinopse

“Ninguém sai ileso de um grande amor. Ou da falta dele. Esta é uma história de fronteiras. E de reencontros. Os homens têm coração de mulher. Deixam-se amar em silêncio. As mulheres têm força de homens. São elas que mais fazem avançar a acção. A materna doçura não precisa de cédula nem de parto. A grande mãe preta e o irredimível solteirão amam os filhos que não tiveram. Este romance faz-se com um infinito «M» de mãe. Numa escrita viciante e cheia de surpresas, a língua portuguesa funciona como chave de «reconhecimento» entre personagens supostamente estranhas. Ninguém diga que conhece a última geração de ficcionistas portugueses se não tiver lido e relido este livro.”

Oficina do Livro, 2004

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