“Almas Mortas” de Nikolai Gogol

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“Clássico da Literatura”. Esta curta menção tem o condão de despoletar uma variedade de reacções num qualquer potencial leitor; frequentemente estas oscilam entre uma repulsa forte e imediata, seguida de afastamento num piscar de olhos, como se de uma ameaça à integridade pessoal se tratasse e um estado reverencial, quase religioso, usualmente acompanhado de enfáticas recomendações quanto à imprescindibilidade da leitura da obra. Confesso que durante demasiado tempo pendi mais para a primeira hipótese do que para a segunda, embora creia que a abordagem mais sensata talvez seja a que se encontra algures no meio. Algo do género “ falam tanto deste livro/autor que estou tentado(a) a dar-lhe uma espreitadela, talvez seja realmente interessante e mereça o rótulo?” Foi com um misto disto e de grande curiosidade que iniciei a leitura de “Almas Mortas”. Rapidamente percebi estar diante de um livro excepcional e de um autor brilhante, capaz de urdir as palavras de um tal modo que estas ultrapassam largamente a função para que foram criadas, a comunicação, e atingem aquele patamar, impossível de espartilhar numa qualquer definição, mas passível de ser instantaneamente reconhecido como arte literária. Originalmente publicado em 1841 após um braço-de ferro com os censores do Império Russo, este livro é um espantoso fresco da sociedade da época, provinciana e feudal, com todos os seus atributos, para o bem e para o mal. Apesar de notoriamente idealista, o olhar de Gogol é de uma argúcia e de um humor ácido espantosos e a caracterização das personagens é absolutamente notável, embora quase sempre a tender para a caricatura. O narrador mete-se continuamente com o leitor, algo que nos dias de hoje talvez já não se veja com os melhores olhos, mas que resulta muito bem por ser tão magistralmente feito e o “herói” da história nada tem a ver com uma certa ideia de perfeição humana, característica dos romances usuais à época. Aliás, Gogol foi injustamente acusado de anti-patriotismo por causa desta obra pela qual perpassa claramente o grande amor que sentia pelo seu país. Assim, Pavel Ivanovich Chichikov é um conhecedor profundo da natureza humana, um manipulador exímio, alguém disposto a tudo, ou quase, para atingir o seu objectivo: enriquecer. Um homem de esquemas, um vigarista que não se vê como tal uma vez que a corrupção, então como hoje, corria à rédea solta, iluminado por uma ideia de negócio original e arriscada: comprar os servos do sexo masculino mortos (as almas mortas) aos respectivos proprietários. Muitas são as suas peripécias cuja descrição, deliciosa e mordaz, por vezes mesmo tensa, mantém a atenção total do leitor até ao final. É difícil revelar mais detalhes sem correr o risco de estragar o prazer de futuras leituras e por isso é melhor ficar por aqui. Em suma, este é um romance que merece o epíteto de “clássico” no melhor sentido possível: uma crítica social inteligente e acutilante, soberbamente concebida e escrita, que se lê com grande prazer. Ante a enorme dificuldade em seleccionar excertos de dimensão adequada, deixo aqui o começo deste “Almas Mortas” (edição CELIDIS, Lisboa com tradução e prefácio de José António Machado, 1974):

 

“Abriu-se de par em par a porta-cocheira duma hospedaria da cidade de N., capital de província, e deu passagem a uma pequena brisca de molas, uma dessas carruagens de quatro rodas e dois assentos em que geralmente viajam os celibatários, os tenentes-coronéis ou majores reformados, proprietários de uma centena de almas, em resumo, todas as pessoas da chamada classe média. Na brisca, ia sentado um cavalheiro, nem bonito nem feio, nem gordo nem magro; não parecia velho, mas também não era novo. A sua chegada à cidade passou absolutamente despercebida; só dois mujiques, parados à porta de uma taberna em frente da hospedaria, trocaram entre si algumas reflexões, mais a respeito da brisca do que do viajante.

– Olha aquela roda – disse um – Em caso de necessidade, achas que aguentava até Moscovo?

– Creio que sim – respondeu o outro.

– Mas até Kazan não chegava, com certeza…

– Não, até Kazan não chegava – foi a resposta.

A conversa ficou por aí.“

 

 

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