“Rakushisha” de Adriana Lisboa

Rakushisha

Em cada ano, quando começa a Feira do Livro, todos os caminhos da cidade tornam-se meros percursos para os pés de leitores impenitentes como eu se dirigirem para o Parque Eduardo VII sempre que puderem; nunca são precisos pretextos ou razões para ir à feira e nunca se sabe que surpresas maravilhosas lá espreitam, à espera de captar a atenção do leitor incauto. Sim, porque é sem cautelas nem pudores que, depois de se ter comprado aquele livro que constituiu o motivo “oficial” de mais uma visita, se prossegue caminho através dos “cestas” ou mesas de pechinchas disponibilizadas por algumas editoras. E porque, por vezes, os acasos são mesmo felizes, foi assim que encontrei este “Rakushisha”. Não conhecia a autora, nunca tinha ouvido falar deste pequeno romance, fui irremediavelmente atraída pela capa e pelo título e convencida a trazê-lo comigo pela sinopse: Japão, Brasil, haikus, hum…parece mesmo interessante… e assim, mais uma vez, a magia da feira se manifestou e, primeiro intrigada, depois extasiada, mergulhei na prosa belíssima de Adriana Lisboa. Haruki e Celina, dois estranhos que se conhecem por acaso, resolvem viajar juntos para o Japão num percurso não só geográfico mas também de encontro com os seus demónios internos, com as suas dores mais profundas. Ele devido a uma paixão infeliz, ela atormentada por um sofrimento incomensurável que será desvendado, lentamente, ao longo da narrativa. As suas histórias não são originais; o que captura a atenção de imediato é a forma lírica, de uma beleza incomum, verdadeiramente poética, como estas nos são contadas. Outro aspecto interessante é a versão de “choque cultural” apresentada pela autora: Haruki é um brasileiro, filho de imigrantes japoneses, que pouco ou nada sabe sobre o Japão e a sua cultura, para além de não falar japonês. A  viagem será também, de certo modo, um reconhecimento das suas raízes ancestrais, um sentir da alma japonesa, fulcral para que ele consiga capturar a essência da poesia Haiku de Bashō e assim ilustrar adequadamente a edição brasileira da obra daquele poeta japonês. Por seu lado, Celina resolve, apesar de tudo, continuar a caminhar, um pé após o outro, na esperança de uma redenção que a reconcilie com a vida. Não vale a pena continuar a esmiuçar os meandros desta história, melhor mesmo é lê-la e deixar-se enfeitiçar pela escrita maravilhosa de Adriana Lisboa. Foi muito difícil escolher excertos e por isso estes são extensos e dedicados a quem sinta curiosidade por este pequeno grande livro.

Excertos:

“Eu não nasci aqui. Não sei se você está muito interessado em saber. Sou do outro lado do planeta. Pode-se dizer que vim escondida dentro da bagagem de outra pessoa. É como se eu tivesse entrado clandestina, apesar do visto no meu passaporte. De fininho, para que não me vissem, para que não vissem as coisas invisíveis que eu trazia na mala.”

“Estou reaprendendo a andar. Depois da tempestade, da era glacial, da grande seca, a gente pode usar a imagem que quiser, ninguém vai-se importar muito, afinal quem somos nós se não menos que anónimos aqui. Abriu-se esta porta. Agora não dá tempo de te contar como aconteceu. E ainda não sei se andar equivale a lembrar se equivale a esquecer, e qual das duas coisas é o meu remédio, o veneno que tece a morte e a droga que traz a cura. Se vim para lembrar – se vim para esquecer. Se vim para morrer ou para me vacinar. Talvez eu descubra. Talvez nunca seja possível descobrir, desvelar, levantar o toldo, remover qualquer traço de ilusão da ilusão de caminhar.

Seja como for. É só colocar um pé depois do outro.”

“ A viagem nos ensina algumas coisas. Que a vida é o caminhar e não o ponto fixo no espaço. Que nós somos como a passagem dos dias e dos meses e dos anos, como escreveu o poeta japonês Matsuo Bashō num diário de viagem, e aquilo que possuímos de fato, o nosso único bem, é a capacidade de locomoção. É o talento para viajar.”

“Era preciso reconhecer e reverenciar esses momentos. Eles eram rápidos e raros. Momentos em que sem nenhum motivo aparente tudo parecia entrar nos eixos, ajustar-se, encaixar-se. Acabavam-se as perguntas e a necessidade delas. Acabava-se a pressa, o ter aonde ir, o vir de algum lugar. Simplesmente as solas dos sapatos batiam na calçada úmida e pronto, o mundo prescindia de outros significados.

Um pé depois do outro.

Momentos rápidos e raros. Aquele ali se desfez de repente, no cruzamento com a rua do Catete. Haruki notou que perdia alguma coisa, chegou a olhar para trás automaticamente, para ver se dava com um pedaço de si caído na calçada. Mas era o instante que se desmanchava, colher de sal dentro d’água. E Haruki sacudia a colherinha, desmanchava o instante, porque não tinha como ser diferente, se a gente não mata as epifanias elas nos matam, e atravessava a rua na direção familiar da entrada do metrô.”

“A mulher já tinha nome. Celina. E, coerente com esse nome, parecia mesmo alguma coisa volátil a Haruki. Talvez por dentro ela não tivesse ossos nem músculos nem vísceras, mas ar. Um pedaço de céu recoberto pela fina epiderme humana.”

“Se a vida admitisse uma dobra, e mais uma, e outra, sucessivamente até ao infinito, as superfícies estariam mais disfarçadas. Haveria sinuosidades onde se esconder à espera do sono, à espreita da morte. Haveria brechas, como tocas de animais ariscos, onde reparar o sonho, onde costurar na roupa remendos da vida oficial, nos lugares puídos pela ausência. Haveria como fitar a ausência nos olhos sem acordar o dragão que jazia lá dentro. Haveria vãos, alcovas, gavetas onde guardar segredos dentro de revistas velhas, pétalas murchas de flores brevíssimas entre páginas amareladas de livros muito lidos.”

“Ele dormia, na primeira tarde nesta cidade. Naquele momento não era de ninguém, não era sequer de si mesmo, ele era antes uma reconstrução. Um romance. Uma ficção por trás dos olhos fechados. Havia uma dor guardada em algum lugar? Será que todas as pessoas têm uma dor guardada em algum lugar? Se houvesse, de que tamanho seria?

Como medir a dor? Haveria unidades pessoais? Centímetros cúbicos, milhas, hectares? E a dor passaria? Simplesmente a dor choveria na altura certa, que por aqui chamam tsuyu, a estação chuvosa, um pesadelo no início do verão? E depois a umidade da dor evaporaria sob um sol de promessas?”

“Deve haver como me perder, de algum modo. Deve haver como me perder para encontrar aquele lugar no mundo que nunca foi pisado antes, um território realmente virgem. Deve haver um modo, quem sabe, de partir em viagem e não regressar mais. Reduzir-se à mochila que vai às costas e a umas poucas mudas de roupa. Reduzir-se, ou agigantar-se, a uma ausência de casa própria e cidadania, esfacelar o papel pega-mosca do cotidiano e fazer dele mesmo, cotidiano uma aventura infinitamente deslocável. Descolável. Desgrudá-lo do chão. Levantar os pés para caminhar, estudar a bússola e o mapa, mas randomizar todos os gestos. Traçar uma reta, menor caminho entre dois pontos, e picotá-la com a tesoura, apagar trechos com a borracha, dissimular outros com o esfuminho, despistá-la em curvas. De tal modo a esquecer que um dia chegou a ser uma reta, dotada de ponto final. De objetivo. Desobjetivar-se. Esse o território realmente virgem – o único. Assumir como um sentido a falta de sentido da vida. Em todos os sentidos.”

“Durante cem dias me seguiu como uma sombra, e depois por mais cem vezes cem dias, até que eu perdesse a conta deles e o mundo começasse a se medir em passos, um após o outro, para não se desintegrar. O planeta se solidificava conforme eu pisava nele. A lava quente ia virando crosta, ia virando terra. Durante cem vezes cem dias me seguiu como uma sombra e eu estendi durante cem vezes cem dias as mãos a fim de alcançá-la. De tocá-la. De estreitar o seu corpo pequenino e ouvir sua voz reclamando você está me abraçando com muita força, mãe.

Ao despertar, meus olhos estavam secos e eu sentia só a urgência de obedecer ao movimento como um cão labrador de capa amarela que segue seu dono.”

 

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