Poesia

Poesia_livros1A maior parte dos livros lê-se com o cérebro, pensa-se e volta-se a pensar, tecem-se histórias dentro da história, pomos a nossa imaginação a “fazer concorrência” à do autor…

A poesia, a poesia lê-se com o coração. Deixamos o cérebro a “descansar”, e as letras, os versos, desenham-se-nos no coração. Mais do que a prosa, é a poesia que nos faz sonhar. Saímos de nós e voamos pela sonoridade das palavras que nos transportam para lá do Universo.

E deixamo-nos levar entre livros… um leva a outro, esse a outro e podemos andar assim a vaguear. “Go with the flow”. Olhamos para as nossas estantes e os olhos e as mãos vão por instinto procurar poesia, vamos a uma livraria ou a uma biblioteca e acontece-nos o mesmo. A poesia pode tornar-se um vício.

Depois de ter lido “Vamos comprar um poeta”, de Afonso Cruz (opinião aqui partilhada) apeteceu-me fazer uma viagem pela poesia, algo que não fazia desde o lançamento de “Os Armários da Noite”, de Alice Vieira.

Comecei por Sophia, que me levou a Alice, que me levou a Pessoa. Todos diferentes, uma mesma paixão.

E em cada um me revi, era eu que estava ali. Aquelas eram as minhas palavras.

E vocês? De vez em quando deixem-se invadir pela poesia! Pois como lemos no “Poeta” de Afonso Cruz:  “A poesia (…) transfigura o universo e faz emergir a realidade descrita com a absoluta precisão da ambiguidade. Nunca li um bom verso que não voasse da página em que foi escrito. A poesia é um dedo espetado na realidade.” (p. 87)

Ler poesia é, de facto, “fazer abdominais, flexões e alongamentos com a imaginação” in “Vamos comprar um poeta”

100% recomendado! Fica o desafio!

 

Excertos

POESIA
Sophia de Mello Breyner Andresen

ATLÂNTICO

Mar.
Metade da minha alma é feita de Maresia (p.28)

MAR

I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
(…) (p. 29)

AS FONTES

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.
(p.70)
OS ARMÁRIOS DA NOITE
Alice Vieira

1
o perigo de acumular silêncios em
corredores vazios      ou
qualquer outro vício que a
vida nos traz

é que depois as palavras
morrem à toa
sem flores      sem cânticos      sem
missa do sétimo dia

e ninguém sabe para que serviram
se mataram quem não deviam      ou
se ficaram entre
os intervalos do sono      fazendo-nos
tropeçar nelas como em
chinelos velhos      roupa da véspera
peças de um puzzle que nunca
tivemos tempo de acabar

por vezes surge-nos mesmo a tentação de
as tapar com os lençóis brancos das arcas
onde as avós nos organizavam o futuro
e que nunca usávamos porque

eram de linho      e o linho
dava muito trabalho a engomar
mas rapidamente entendíamos que
também as palavras davam muito trabalho a desdobrar
na nossa língua      e
embora uma ou outra ainda tentasse brilhar
acabavam sempre por encontrar o caminho de saída
onde o rasto dos crimes perfeitos as esperava

sobre elas se abatem
os pesadelos das manhãs de domingo      e
ninguém se lembra de lhes arranjar
significados para o que deixaram para trás
neste estranho país onde continuamente as esperamos
no cais das mercadorias fora de prazo

depois tudo acaba
ninguém lhes coloca a pedra
com dia de nascimento e morte
ninguém procura herdeiros      ou
calcinados despojos

cavalos de guerra abandonados
na terra de ninguém
(p.13)
MENSAGEM E OUTROS POEMAS SOBRE PORTUGAL
Fernando Pessoa

III. AS QUINAS
QUINTA:
D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
(p. 80)

 

Assírio & Alvim, 2013
Caminho, 2014
Assírio & Alvim, 2014

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