“A Resistência” de Julián Fuks

A_Resistência

O tempo passado a ler é tão precioso que, desde há alguns meses, esforço-me por fazer escolhas, enleadas em mil cuidados, cujo objectivo é acrescentar livros às prateleiras das minhas estantes mentais dedicadas a leituras inesquecíveis, àquelas a que, quase sempre, mais cedo ou mais tarde, me apetece voltar. Procuro permanentemente livros que me deslumbrem, que me desafiem, que me inquietem, que se entranhem sob a pele e que acabem por se tornar parte de mim ao gerarem memórias acarinhadas, circuitos neuronais bem estabelecidos e revisitados com frequência. Este processo não será porventura totalmente racional, ou talvez não inteiramente consciente, pois nem sempre consigo encontrar palavras para exprimir as razões das minhas preferências literárias. Muitas vezes as palavras iludem-me e surge uma espécie de reconhecimento imediato, instintivo, uma certa atracção pela história narrada ou pela forma como aquela é narrada, ou até mesmo por ambas, e aí instala-se um silêncio maravilhado, um deslumbramento ante a beleza da arte literária e, como leitora, chego a casa; àquele espaço-tempo fascinante de imersão num livro onde a realidade quotidiana se dilui permitindo a entrada num outro universo.

“A Resistência” ocupa já um lugar especial nas minhas leituras por ser, até agora, o único livro que me apeteceu reler imediatamente após tê-lo terminado. Porquê? Pela história de uma família, de pais e filhos, de irmãos? Por abordar a problemática da adopção? Por inserir esta questão num contexto histórico específico da História recente da América Latina? Por chamar a atenção para a luta das Avós da Praça de Maio? Pela forma brilhante como Julián Fuks escreve? Por tudo isto. Neste romance todas estas facetas se combinaram de modo sinérgico e a soma resultou superior à mera adição das partes. E também porque é, acima de tudo, uma narrativa intimista de afectos e de uma busca por si mesmo e pelo outro fabulosamente escrita.

Uma pequena nota final: é pena que seja o único livro do autor disponível em Portugal porque fiquei com uma vontade enorme de novos encontros com a escrita de Julián Fuks.

Excertos:

“Isto é uma história. Isto é história.

Isto é história e, no entanto, quase tudo o que tenho ao meu dispor é a memória, noções fugazes de dias tão remotos, impressões anteriores à consciência e à linguagem, resquícios indigentes que eu insisto em malversar em palavras. Não se trata aqui de uma preocupação abstrata, embora de abstrações eu tanto me valha: procurei meu irmão no pouco que escrevi até ao momento e não o encontrei em parte alguma. Alguma ideia talvez lhe seja justa, alguma descrição o evoque, dissipei em parágrafos sinuosos uns poucos ditos verídicos, mais nada. Não se depreenda desta observação desnecessária, ao menos por enquanto, a minha ingenuidade: sei bem que nenhum livro jamais poderá contemplar ser humano nenhum, jamais constituirá em papel e tinta sua existência feita de sangue e carne. Mas o que digo aqui é algo mais grave, não é um formalismo literário: falei do temor de perder meu irmão e sinto que o perco a cada frase.”

“A quem, é o que pergunto, quem se interessaria hoje por tão mesquinhos meandros de um tempo distante, e a resposta que meu pai repete é uma absurda mescla de devaneio e lucidez: as ditaduras podem voltar, eu sei, e sei que seus arbítrios, suas opressões, seus sofrimentos, existem das mais variadas maneiras, nos mais diversos regimes, mesmo quando uma horda de cidadãos marcha às urnas bienalmente – é o que penso ao ouvi-lo mas me privo de dizer, para poupá-lo da brutalidade do mundo ou por algum receio de que não me entenda.”

“Não consigo conceber a supressão do ser explorada ao máximo, a destruição sistemática desse lapso que é o ser, sua conversão em utensílio torturado.”

“Com meus pais aprendi que todo o sintoma é signo. Que, tantas vezes, contrariando a razão, contrariando a rigidez da garganta, a imobilidade da língua, o corpo grita. Que o corpo quando grita, aproxima-se muito mais do cerne do que a razão, pois o corpo é mais urgente, naõ vê razão na continência, não perde tempo em mentir. Foi, no entanto, com a razão que o aprendi, e desde então é sensível meu fracasso em sentir, desde então cada grito do meu corpo apenas me intriga.”

“Mas há pesares que não sucumbem a argumentos, há dores que não se exageram. Há histórias que não se inventam à mesa, entre goles e garfadas, entre papos quaisquer, histórias que recusam a proximidade com a leveza, que não se prestam à ruminação corriqueira, às frases diárias. Há casos que não habitam a superfície da memória e que, no entanto, não se deixam esquecer, não se deixam recalcar. No espaço de uma dor cabe todo o esquecimento, diz um verso sobre coisas incertas, mas os versos nem sempre acertam. Às vezes, no espaço de uma dor cabe apenas o silêncio. Não um silêncio feito da ausência de palavras: um silêncio que é a própria ausência.”

“Sei que escrevo meu fracasso. Não sei bem o que escrevo. Vacilo entre um apego incompreensível à realidade – ou aos esparsos despojos de mundo a que costumamos chamar de realidade – e uma inexorável disposição fabular, um truque alternativo, a vontade de forjar sentidos que a vida se recusa a dar.”

Sinopse: “Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado”, anuncia, logo no início, o narrador deste romance. Do drama de um país, a Argentina a partir do golpe de 1976, desenvolve-se a história de uma família, num retrato denso e emocionante.
Um livro em que emoção e inteligência andam de mãos dadas, tocando o coração e a cabeça dos leitores.

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2 pensamentos sobre ““A Resistência” de Julián Fuks

  1. Renata, querida, sei exatamente do que você está falando. Sou brasileira e acompanho este blog com muito interesse, as resenhas feitas com capricho e livros que sempre me deixam curiosa, no mínimo, mas em geral fico encantada.
    Li Resistência e senti cada frase colocada com aquela coisa familiar de que é tecida a ligação entre os que se amam. Na intensidade dessas relações. Emocionei-me com a história das Avós e toda a barbárie praticada nos duros anos da ditadura. E terminei a leitura completamente rendida à poesia de Fuks, à sensibilidade que tanto me apaixona quando encontro um autor que escreve e me aquece a alma!
    Lindas palavras suas, belos trechos destacados, voltei ao livro através de você.

    • Muito obrigada Manu! É muito bom saber que a Roda dos Livros também pode ser uma ponte feita de palavras unindo os nossos dois países. A Resistência foi para mim o começo fantástico da viagem de descoberta dos novos autores brasileiros que pretendo prosseguir. 🙂

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