O Livro – Zoran Živković

olivroO narrador do livro que se chama O Livro é um livro. Como é que alguém que adora livros pode não querer ler este livro?

E agora que já gastei o número de vezes que é razoável utilizar a palavra livro neste texto (e nos próximos), como é que vos poderei contar a aventura que foi esta leitura? Posso dizer que foi paixão à primeira frase.

“Não é fácil ser um livro.”

E assim começam os desabafos de um livro que sofre nas mãos dos leitores, esses abusadores (psicopatas, vá) que dobram cantos de páginas, escrevinham por todo lado, esquecem e abandonam livros de qualquer maneira, e mais uma série de pormenores deliciosos que desenham sorrisos na cara de quem os lê.

Uma sátira exagerada, mas inteligente. Carregada de ironia, que entretém, diverte e faz pensar, não poupando nada nem ninguém relacionado com o mundo dos livros.

Utilizando os seus conhecimentos do mundo editorial, e revelando uma lucidez admirável Živković, acorda o leitor romântico do seu sonho, criando um leque de personagens detestáveis a quem entrega a responsabilidade da criação de oferta literária. O leitor passa para o outro lado da página e observa um mundo terrível de falta de profissionalismo, em que o exagero funciona como uma lupa, aumentando o desmazelo de uma secretária que, enquanto pinta as unhas, revê manuscritos, cria títulos e faz as capas dos livros. Tudo perante o olhar atónito do autor.

Desde as mais diversas jogadas “debaixo da mesa” para promover livros, usando e abusando sem qualquer pudor da mentira e da invenção delirante, o editor esmaga a fantasia dos sonhadores dos livros, equiparando o objecto de paixão e culto a qualquer mercadoria. Sabemos que é assim, que no meio do novelo irónico há verdade, pior, há realidade. E os livros, a meu ver, mereciam ser melhor tratados. Afinal é verdade, não é fácil ser livro.

Li O Livro com bastante interesse, deixando-me envolver na teia criada pelo autor. Contudo, talvez a parte dedicada à criação do livro, em que há uma transferência de narrador, seja desnecessariamente extensa. Em alguns momentos, quando os livros são comparados às mulheres, pareceu-me ouvir uma vozinha machista. Mas admito que o propósito do autor se possa ter perdido na tradução, dado que livro é feminino em Sérvio. Fica a dúvida.

Deixando de parte a dúvida, que não é suficiente para deixar de apreciar a leitura, fica a (minha) certeza de que teremos sempre livros. Para mim, nenhuma das opções de substituição do objecto-livro são sequer alternativas, mas apenas recurso em caso de necessidade. Preciso de lhes tocar as páginas, de sentir os relevos das capas, de os folhear enquanto lhes inspiro o perfume. O livro não pode deixar de existir.

Sinopse

“Zoran Živkovic demonstra uma vez mais toda a sua imensa cultura livreira e, com muito humor, ironia e sátira, compõe um brilhante exercício de imaginação narrativa, onde é o próprio Livro que se assume como protagonista da sua própria história e se dirige em primeira pessoa ao seu leitor humano. Ambos, afinal, partilham muitos aspectos da sua existência e, porventura, o mesmo destino, ou não seria o Livro, mais do que um mero objecto impresso, um verdadeiro monumento à inteligência, ambição e vaidade humanas.”

Cavalo de Ferro, 2016

Tradução de Rita Carvalho e Guerra

Advertisements

Um pensamento sobre “O Livro – Zoran Živković

  1. Pingback: Ficção especulativa em Junho de 2016 | Rascunhos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s