Uma Senhora Nunca

UmasenhoranuncaPatrícia Müller conseguiu mais uma vez (depois de “Madre Paula”) deslumbrar-me com uma personagem forte e simultaneamente frágil, que quase parece banal como na vida real onde se inspirou, se não penetrasse no universo mental de Maria Laura.

“Uma senhora nunca deixa de ser senhora, mas pode sentir-se mulher.” (pag. 258)

Eu sempre vivi duas vidas. Nas duas existo, vejo, sinto, ouço, penso.” (pag. 49)

“(…) Maria Laura, uma cabra e uma santa, não ao mesmo tempo, mas com a mesma cara.” (pag. 249)

Uma história familiar, antes e depois do 25 de Abril de 1974. Mudanças repentinas e algumas nem tanto entre mães e filhas que não percebem que o amor tem várias feições e repetem um padrão que nada tem de coincidência apesar da generosidade transmitida pelo sangue. Sem a garantia que nunca lhes falte um casaquinho de malha sobre os ombros.

Uma senhora não se estende às criadas, mesmo que a infância tenha sido passada em cima da barriga de uma.”

Nem sempre a pessoa que está dentro do coração e da alma obedece aos preceitos do senso comum.” (pag. 159)

Relações amorosas falhadas por infâncias incompletas. Matrimonio com afectividade mas sem sexo porque esse reservavam os maridos para o pessoal domestico e afins.

Perdas para uma mulher que deixa de olhar a vida da mesma forma.

A memoria aprisiona-se num espaço e num tempo em que foi feliz.” 

A demência começa a nebular o buraco que Maria Laura tem no coração.”  (pag. 270)

Prodigiosa inspiração da autora e talento para contar uma história que prende desde o início, sem que esta se torne insípida ou maçadora e assim suscita em mim uma profunda admiração.

Sinopse: A resistência aos turbilhões sentimentais, a vitória da vida sobre o tempo que nos devora. Maria Laura é senhora desde que nasceu. Oriunda de uma família antiga e latifundiária, nunca trabalhou um dia na vida. Casa-se, tem filhos, gere um país próprio – o apartamento onde mora numa zona rica de Lisboa. Cuida de vivos e mortos com uma devoção cristã. Depois, enlouquece de medo e de rancor perante todas as mudanças que vêm com a Revolução de Abril de 1974. Esta é a vida de Maria Laura, da sua insignificância e das suas memórias familiares, mas também a história de um amor proibido, filho do marido, a da obsessão em cumprir regras que nunca discutiu, a da demência que é a antecâmara da morte – e a resistência aos turbilhões sentimentais, a vitória da vida sobre o tempo que nos devora. Esta é também uma história romântica, violenta e voluptuosa da vida dos seus pais e filhos, extensões naturais dos braços tentaculares da Senhora. E uma narrativa natural, intimista e sexual do século xx: uma família que vive com o poder e a glória – e que tudo perde com o 25 de Abril.

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