Estrada para Los Angeles – John Fante

Estrada LA

“O mentor de Bukowsky”. Foi este epíteto que me convenceu a ler uma obra de John Fante, autor que, até agora, desconhecia. Isso e o facto de, logo na contracapa, se encontrar a seguinte citação de Bukowsky: «Fante era o meu deus. E eu sabia que os deuses não deviam ser importunados – não podíamos simplesmente bater-lhes à porta.» Na verdade, encontrei vários pontos de contacto com a obra de Bukowsky: a escrita simples e directa, sem rodeios nem adornos, que se torna tão refrescante numa altura em que tantos autores se entretêm a polir as suas frases até ao absurdo, enchendo-as de arabescos e efeitos de estilo, num exercício quase onanista de autopromoção absurda, parecendo convencidos de que, se forem herméticos, passarão uma imagem de qualidade; a criação de um personagem-narrador que funciona como alter-ego do autor, com traços autobiográficos não disfarçados; a exposição crua e franca, através desse personagem-narrador, das  fraquezas e vulnerabilidades humanas e de situações caricatas e até ridículas sem qualquer preocupação em embelezá-las ou em resguardar o personagem/narrador/autor do olhar crítico dos leitores.

Através do personagem Bandini, tal como Bukowsky através de Chinaski, Fante apresenta-nos com candura os recantos mais obscuros da personalidade humana, aqueles traços que tão raramente vêem a luz do dia, porque, uma vez expostos, revelam características dos seus portadores que estes não gostam de confessar ao mundo, por vergonha ou pudor: os complexos de inferioridade, o desejo de parecer erudito (não o sendo), a agressão aos mais fracos como escape para as frustrações, o ressentimento perante os mais fortes ou mais bem-sucedidos. Tudo isto é mostrado sem filtros, o que, por si só, já seria motivo de admiração; mas Bandini vai mais além. Demonstra ainda traços obsessivos, muitas vezes delirantes, quase psicóticos. Dá largas a episódios alucinatórios rocambolescos, chegando a extremos capazes de chocar qualquer mortal (como a tortura de pequenos animais e insectos, atribuindo-lhes carácter humano) ou simplesmente de causar perplexidade (como a declaração de amor a um forno, por exemplo). Foram vários os momentos ao longo da leitura em que a minha sensibilidade se revoltou, e outros em que todo o meu ser gritou «assim também já é demais». O grande mérito de Fante é conseguir que, apesar dessas reacções viscerais aos exageros que relata, o leitor não interrompa a leitura, porque a honestidade brutal da narrativa hipnotiza e vicia. O fim da leitura traz um suspiro de alívio, um desabafo («credo!») e a tentação irresistível de ir em busca dos restantes livros da saga Bandini.

 

Excertos:

“Fui percorrendo a estrada na companhia de outros. Eles pediam boleia de polegar estendido. Eram pedintes com polegares espasmódicos e sorrisos deploráveis, suplicando migalhas-sobre-rodas. Desprovidos de orgulho. Ao contrário de mim, Arturo Bandini, com as suas potentes pernas. Aquele pedinchar não era para ele. Eles que passassem por mim! Eles que fossem a cento e quarenta quilómetros por hora e me enchessem o nariz com os seus tubos de escape. Um dia tudo seria diferente. Hão-de pagar por isto, todos vocês, todos os condutores desta estrada. Jamais andarei nos vossos carros, nem que saiam e me roguem e me ofereçam o carro, de graça e sem ulteriores obrigações. Antes morrer na estrada. Mas o meu dia há-de chegar, e nessa altura verão o meu nome escrito no céu. Hão-de ver, todos vocês! Eu não me ponho a acenar como os outros, com um polegar curvo, por isso não parem. Nunca! Mas hão-de pagá-las, ainda assim.” (pág. 54).

 

“Por essa altura já tinha corrido a fábrica de conservas a notícia de que uma grande personalidade se encontrava nas suas fileiras, nada mais nada menos do que o imortal Arturo Bandini, o escritor, que estava ali prostrado, sem dúvida a compor algo para os séculos vindouros, o grande escritor que fez do peixe a sua especialidade, que trabalhava por uns míseros vinte e cinco cêntimos à hora por ser tão democrático, esse grande escritor. Tão grande que, enfim, ali estava ele esparramado, apoiado na barriga, ao sol, a vomitar as tripas, demasiado maldisposto para suportar o cheiro sobre o qual iria escrever um livro. Um livro acerca das indústrias pesqueiras da Califórnia! Oh, que escritor! Um livro sobre o vomitado da Califórnia! Oh, que escritor que ele é!” (pág. 80).

 

“Ele era esguio e mais alto do que a média. Eu não tinha o tamanho dele, embora talvez tivesse o mesmo peso. Olhei-o de forma irónica de cima a baixo. Até espetei o queixo e recolhi o lábio inferior para denotar o zénite do desprezo. Também ele me olhou de forma irónica, mas de outra maneira, sem espetar o queixo. Não tinha nem um pouco de medo de mim. Se nada acontecesse entretanto para interromper a cena, a coragem dele não tardaria a ser tal que ele me insultaria.

A sua pele era de um castanho-avelã. Reparei nisso por causa da brancura dos seus dentes. Eram uns dentes brilhantes, como uma fiada de pérolas. Assim que reparei na sua pele morena, soube imediatamente o que havia de lhe dizer. Podia dizer o mesmo a todos eles. Ofendê-los-ia de todas as vezes. Eu tinha noção disso porque algo semelhante me ofendera. Na escola primária, os miúdos costumavam ofender-me chamando-me latinóide e italianito. Eu sentira-me sempre ofendido. Era uma sensação deprimente. Fazia-me sentir tão deplorável, tão desprezível. E eu tinha a noção de que também ofenderia o filipino. De repente era tão fácil consegui-lo que eu me ria silenciosamente dele, e invadiu-me uma sensação de tranquilidade e confiança, um à-vontade em relação a tudo. Não havia como falhar. Aproximei-me e encostei a minha cara à dele, sorrindo da mesma forma que ele sorria. Ele percebeu que vinha aí qualquer coisa. O semblante dele alterou-se de imediato. Ele estava à espera, fosse do que fosse.” (págs. 85 e 86).

 

Tradução de Vasco Gato

Editora Alfaguara

 

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