Milagrário Pessoal – José Eduardo Agualusa

milagrariopessoalJá terminei este Milagrário Pessoal há algum tempo. É um livro sobre uma busca de palavras, uma procura em forma de viagem feita com palavras, todas muito belas. É um livro incrível, de uma beleza tocante e, ao mesmo tempo, cheio de uma luz deliciosa que acende o corpo por dentro. Iluminou-me de um deleite único. Desejei que nunca terminasse. Quando a última página chegou quis dizer a toda a gente que têm de o ler. Mas, infelizmente, um livro com tantas palavras, deixou-me vazia delas. Pelo menos das palavras merecidas, das melhores e mais perfeitas, as únicas que poderia usar para vos falar deste livro.

Por isso desisto de vos dar as minhas palavras. Mas deixo-vos outras. Algumas das minhas preferidas deste livro.

“Vou anotando nas páginas do meu Milagrário Pessoal os factos extraordinários que me sucedem, ou de que sou involuntária testemunha, dia a pós dia. É um diário de prodígios. Os milagres acontecem a cada segundo. Os melhores costumam ser discretos. Os grandes são secretos.” (Pág. 15);

“Os descendentes dos angolenses, hão-de um dia falar um português próspero, redondo e musical, e quem os ouvir talvez consiga escutar no eco de certas palavras o largo rumor do Cuanza passeando-se em direcção ao mar, o colorido piar de suas muitas aves, o zunir dos insectos, o cair das chuvas, o ribombar dos trovões, o silvo do vento soprando húmido por entre o capinzal.” (Pág. 33);

“O preconceito contra a poesia, entendida como uma distracção inútil, se não mesmo um tanto ou quanto perniciosa, vem de há muito tempo. No entanto, a poesia começou por ser uma disciplina da magia, com efeitos práticos, concretos, no quotidiano das pessoas, e desde então não mudou assim tanto.” (Pág. 41);

“As pessoas começam a definhar pela imaginação. Algumas já nascem quase mortas, ou mortas de todo, mas a tal ponto carecem de imaginação que nem dão por isso e insistem em respirar como se estivessem vivas. A mim, pelo contrário, possui-me, sem jamais esmorecer, uma imaginação furiosa. Desperta-me o coração e arrebata-o. Acende-me e alteia-me a carne murcha. Não me deixa morrer.” (Pág. 64);

Sinopse

“Iara, jovem linguista portuguesa, faz uma incrível descoberta: alguém, ou alguma coisa, está a subverter a nossa língua, a nível global, de forma insidiosa, porém avassaladora e irremediável. Maravilhada, perplexa e assustada, a jovem procura a ajuda de um professor, um velho anarquista angolano, com um passado sombrio, e os dois partem em busca de uma colecção de misteriosas palavras, que, a acreditar num documento do século XVII, teriam sido roubadas à “língua dos pássaros”. Milagrário Pessoal é um romance de amor e, ao mesmo tempo, uma viagem através da história da língua portuguesa, das suas origens à actualidade, percorrendo os diferentes territórios aos quais a mesma se vem afeiçoando.”

D. Quixote, 2010

 

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