Síndrome de Antuérpia de João Felgar

Se há coisas que admiro num escritor é a forma como consegue escrever dois livros muito diferentes mas, mesmo assim, tão admiravelmente belos. Confesso que esperava impaciente este livro de João Felgar mal soube que o autor estava prestes a terminá-lo. Gostei muito de Terra dos Milagres e estava muito curiosa com esta segunda obra. Propus-me lê-la sem fazer comparações porque temia que, depois um primeiro livro com a qualidade de Terra dos Milagres, fosse difícil criar uma segunda obra com tanta mestria. Em parte, a culpa disso é do leitor pois as altas expectativas que muitas vezes tem, fazem com que pegue na segunda obra esperando dela o céu…

Mas a sua escrita está lá. Reconhece-se bem, sem dúvida. A forma inteligente como conta a história e como a desenvolve, os personagens caracterizados psicologicamente até à exaustão mas sem cansar, a descrição dos espaços, dos lugares, dos costumes e tiques de toda uma aldeia, tudo está lá. O enredo desenvolve-se devagar. É preciso contar, explicar ao pormenor como toda uma aldeia (ou quase) se une para guardar um segredo. Um crime. E é nesse decorrer devagar em que é descrita a história que se saboreia pormenores tão delicados, frases belíssimas e carregadas de sentido. Não esperem um ritmo tão intenso e rápido como o do primeiro livro, como eu o fiz, confesso. Degustem com calma as palavras do autor e garanto-vos que quando o final chegar ficarão a pensar nele. Sem correr o risco de vos contar nada, faço-vos as mesmas perguntas que tive de fazer para perceber esse final: Quem costumava enviar bilhetinhos a Antuérpia? Como o fazia? Então…

Embora tivesse prometido não comparar as duas obras, não consegui. O humor subtil, que adorei em Terra dos Milagres, não o encontrei aqui tantas vezes mas nem por isso este livro lhe fica atrás. Parece-me que é-se conquistado mais rapidamente pela primeira obra mas, esta segunda, prima pela mestria com que o autor consegue descrever a facilidade com que o horror consegue espalhar-se a toda uma aldeia, cúmplice e inocente ao mesmo tempo.

O nome das personagens merece um destaque especial: muito imaginativos, sui generis q.b., parece que encaixam perfeitamente em cada personagem, que lhes pertencem por direito. E, sobretudo, não precisamos de elaborar um “mapa” para não os trocarmos.

Embora me pareça que não será do gosto de um público tão abrangente e vasto como o de Terra de Milagres, este livro encheu-me as medidas. Deliciem-se. Provem-no devagar, como merece!

Estrelas: 5*+

Sinopse

No princípio tinha corpo e nome de homem. Depois partiu da aldeia, foi-se embora. Quando voltou era uma mulher, com um nome estranho e um passado de estrela dos palcos. Mas talvez fosse mentira. Por algum tempo foi atração de uma boîte de beira de estrada. Até à noite do incêndio, quando lhe deram o nome de Castiça, e se tornou a tola da aldeia. No primeiro sábado da Quaresma, Castiça aparece morta no fundo de uma pedreira abandonada. Traz vestida ainda a roupa que usara durante o corso e o baile de carnaval. Castiça era a doida da aldeia, cantava nas esquinas, bebia muito, e dizia asneiras alto. Mas não foi sempre assim, nem teve sempre esse nome.

Justiniano Alfarro é preso no próprio dia em que o corpo é descoberto, porque tudo indica, com uma clareza sem margem para dúvidas, que foi ele quem a matou. Seria tudo um logro, um embuste, porque Justiniano era o mais perfeito dos homens. Mas nenhuma voz se levantou quando o levaram, e todos aceitaram a notícia num silêncio cúmplice. Todos, menos as mulheres que o amaram. Antuérpia, sua filha, é uma dessas mulheres. Convencida de que enfrenta um conluio, prepara-se para repor a verdade procurando-a no passado do pai. Mas engana-se, porque a origem de tudo está no futuro da aldeia.

Neste novo romance, João Felgar regressa ao universo mágico das pequenas aldeias, tão elogiado pelos leitores de Terra de Milagres, e às histórias que só nelas ganham força e misticismo.

 

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