“Vamos comprar um poeta” de Afonso Cruz

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“(… ) as histórias não podem ser engarrafadas sem que se estraguem rapidamente. Têm de andar ao ar livre como os animais selvagens. Temos de as soltar para que possam correr todas nuas.”  

Afonso Cruz in “O pintor debaixo do lava-loiças”

Despachemos primeiro os adjectivos habituais, “saídinhos” a correr desalmadamente da omnipresente Caixa de Pandora dos lugares-comuns: maravilhoso, belo e ternurento. Sim, porque este é mais um artigo sobre este pequeno livro, um volume que mais parece um bombom (de chocolate negro, 72% de cacau no mínimo) impecavelmente embrulhado na sua capa tão bem conseguida, e a probabilidade de aparecerem ideias originais para o escrever começa a diminuir, se não mesmo a tender para zero. Também pertinente e de grande actualidade (continuamos na Caixa de Pandora), um livro com capacidade para abrir uma “brecha na consciência” ou, no mínimo, para estremecer algumas mentes, quiçá mais distraídas, que andem por aí. Por isto mesmo, apeteceu-me ir ler para a rua, para um jardim, enfim, para um qualquer lugar ao ar livre, não confinado, para que as palavras de Afonso Cruz pudessem, de algum modo, libertar-se das páginas impressas e espalhar-se em todas as direcções. Para que fossem lidas, ouvidas e sentidas, para que abanassem consciências cujos nomes são compostos de letras mas bem podiam sê-lo por números. Seremos assim tão diferentes dos personagens imaginados pelo autor?

Se é verdade que quase tudo no Universo conhecido pode ser representado matematicamente e que isso é fundamental para uma compreensão mais precisa da realidade, também é certa a impossibilidade da redução da extrema complexidade da experiência humana a meros cálculos aritméticos. Mesmo que nos víssemos como polinómios enormes, feitos de incontáveis adições e subtracções, tal como Calvino refere em “Todas as Cosmicocómicas”, parece-me que nunca seríamos capazes de abarcar todas as dimensões da esfera humana, nunca seríamos capazes de nos reduzir a um único denominador comum, caso fôssemos fracções. Há uma infinidade de percepções, sensações, sentimentos, pensamentos e necessidades, subjectivos e objectivos, impossíveis de encarar como números ou transacções económicas e isso é o mais precioso de tudo. Precisamos de arte, como expressão criativa e como pura fruição de prazer estético, tanto quanto necessitamos de comida, água, abrigo ou amor. Há aqui certo paradoxo, pois o que interpreta, traduz e mostra a beleza incomensurável da existência também pode inquietar, agitar, catalizar novos pensamentos e, em última análise, contribuir para mudar aquilo que precisa de ser mudado.

Esta é uma história subversiva, uma narrativa contra a torrente do consumismo, do primado do transitório e supérfluo que mantém as “massas” atordoadas e sossegadas para que não pensem, não vejam nem sintam. Para que, algures, os “senhores dos mercados” continuem a acumular riqueza e para que o mundo continue, “alegremente”, a perpetuar padrões de injustiça e violência baseados na ganância e numa certa visão utilitarista da existência.

A ler, por todos e com urgência.

Excerto:

“A poesia, diz-me ele, transfigura o universo e faz emergir a realidade descrita com a absoluta precisão da ambiguidade. Nunca li um bom verso que não voasse da página em que foi escrito. A poesia é um dedo espetado na realidade.

Um poeta é como quem sai do banho e passa a mão pelo espelho embaciado para descobrir o seu próprio rosto.

Era isto que ele me dizia. Eu limpava os espelhos na esperança de me sentir assim, tentava desembaciar a vida, como o poeta dizia que tínhamos de fazer, passar a mão pela realidade até vermos um sorriso. Sei que é um trabalho árduo, há demasiado vapo a tornar a vida pouco nítida, desfocada. Mas vou insistir.

O poeta dizia que os versos libertam as coisas. Que quando percebemos a poesia de uma pedra, libertamos a pedra da sua “pedridade”. Salvamos tudo com a beleza. Salvamos tudo com poemas. Olhamos para um ramo morto e ele floresce. Estava apenas esquecido de quem era. Temos de libertar as coisas. Isso é um grande trabalho.”

SINOPSE 

Numa sociedade imaginada, o materialismo controla todos os aspetos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exatidão e até os afetos são contabilizados ao grama. E, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação.
A protagonista desta história escolheu ter um poeta e um poeta não sai caro nem suja muito – como acontece com os pintores ou os escultores – mas pode transformar muita coisa. A vida desta menina nunca mais será igual…
Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das ações desinteressadas.

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