Um Postal de Detroit – João Ricardo Pedro

Postal Detroit

Ele voltou a fazê-lo. Raios o partam, voltou mesmo a fazê-lo. Depois de, em O Teu Rosto Será o Último, nos ter brindado com uma obra povoada de passagens deliciosamente bem escritas (quem não se lembra das “primeiras vítimas da revolução”?), para depois nos deixar pendentes de um desfecho prometido ao longo de todo o livro e afinal sonegado, João Ricardo Pedro regressa agora com um novo livro, mais uma vez magistralmente bem escrito, mas… que nos tira outra vez o tapete, defraudando as esperanças criadas ao longo da narrativa de, no final, vir a esclarecer as várias interrogações criadas durante o desenrolar do enredo.

Se se tratasse de um autor mediano, isto não seria assim tão frustrante – bastaria decidir não ler mais nada dele e o problema estaria resolvido. Mas não é esse o caso. A escrita de João Ricardo Pedro não é coisa a que se renuncie sem dor. Além da forma cuidada e irrepreensível, tem uma ironia subjacente que prende e encanta, trazendo mesmo consigo alguns laivos queirosianos que nos obrigam a ler e reler certos excertos com redobrado deleite. Por isso esta tendência para a não finalização das tramas é tão desesperante. É que o mesmo autor que nos mima com um texto desta qualidade parece depois divertir-se a baralhar-nos, sobrepondo eventos e personagens num jogo de enigmas e reflexos que desafia qualquer tentativa de decifração. Chega mesmo à suprema ironia de nos avisar, a 30 páginas do fim e pela voz do narrador, de que qualquer expectativa relativa ao sentido das páginas que se seguem é totalmente vã: “Querido leitor, prometo-te desde já que esta é a última vez que te interpelo nestes termos. Na verdade, detesto fazê-lo. Porque o faço, então? Para te lembrar que deste lado está um homem doente, e que este livro que seguras nas mãos é apenas uma das muitas manifestações da sua doença. Se ainda guardas alguma expectativa a respeito das páginas que te restam, apelo à tua boa vontade, faz uma de duas coisas: deita fora as expectativas ou deita fora o livro.” (pág. 193).

Não acreditamos, claro, e não deitamos fora as expectativas nem o livro. Prosseguimos a leitura e deparamos com uma profusão de pistas contraditórias que deixam em aberto não só os eventos narrados em si mesmos, mas até a identidade de várias personagens. Até à última página, esperamos ainda um esclarecimento final. Que não vem.

Concluída a leitura, fechei o livro dominada por sentimentos contraditórios. Por um lado, a irritação por ter sido, pela segunda vez, literalmente gozada enquanto leitora típica, que  acredita que um livro deve apresentar soluções para os problemas que coloca e desvendar os mistérios que cria; por outro lado, a convicção de que, se calhar, ser gozada e ficar sem perceber nada da história é um preço bem baixo a pagar pelo privilégio de ler um texto desta qualidade e de desfrutar dos diversos momentos de puro prazer que esta prosa proporciona.

Resta a pergunta de um milhão de dólares: quando chegar às livrarias um novo livro de João Ricardo Pedro, irei lê-lo? Muito provavelmente, sim. Sabendo de antemão que, no fim, vou ter vontade de esbofetear o autor e, ao mesmo tempo, de o cumprimentar pela excelência da sua escrita.

 

Excertos:

 

“Por milagre, aselhice ou amor, os dois tiros de revólver falharam o alvo. Pedaços de reboco soltaram-se da fachada principal do prédio – ao fim de algumas horas, eram pó. No momento dos disparos, Bayarmaa, cujo nome de baptismo era Fernanda, fumava um cigarro com os cotovelos pousados no parapeito da janela e envergava um quimono estampado com crisântemos. Minutos após a ocorrência, ao ser interrogada pela Polícia, revelar-se-ia incapaz de referir um único detalhe que contribuísse para a identificação do homem que a tentara atingir e, perante o ar incrédulo dos dois agentes, acabaria por confessar que, no instante em que soara o primeiro disparo, toda a sua atenção se concentrava no telhado em frente, onde um casal de estorninhos, entrelaçando penas e patas, se unia em melancólica cópula. É lamentável que nenhum dos agentes tivesse tentado aprofundar a questão da melancolia na cópula dos estorninhos – caso para dizer: dá Deus nozes a quem não tem dentes -, mas o elevadíssimo teor poético dos autos lavrados não haveria de ficar por aqui.

Aconselhando-a a permanecer em casa durante as próximas horas, os agentes passaram o resto do dia a recolher depoimentos, a procurar vestígios, a medir distâncias, a calcular ângulos e hipotenusas, a averiguar os mil e um passados de Bayarmaa que, antes de ser Bayarmaa – terapeuta especializada em maleitas ósseas, musculares e neurológicas -, já havia sido Amanda – prostituta do selecto catálogo Madame Tallon, secção «lésbicas, idosos e acamados» -, já havia sido Núria – erotic performer no Habeas Corpus, onde se notabilizara com um show que incluía cachimbos e jibóias -, já havia sido Zélia – stripper no Unicórnio Azul, estabelecimento em que não deixou saudades -, já havia sido Fernanda – telefonista na empresa de confecções Gregório & Gregório Lda – e já havia sido Nandinha – eleita o anjinho mais belo da procissão de Domingo de Ramos da paróquia de Santo Estêvão, no longínquo ano de 1959.” (págs. 63 e 64)

 

“A anatomia dos estorninhos confere-lhes uma confrangedora inabilidade para o amor, e só um desejo imenso pode garantir a perpetuação da espécie. Já com as pessoas é ao contrário: possuem uma aptidão anatómica para o amor, e só um desejo imenso as fez adquirir a capacidade de voar.” (pág. 85)

 

Editora D. Quixote, Leya

 

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2 pensamentos sobre “Um Postal de Detroit – João Ricardo Pedro

  1. Também já o li. Concordo contigo mas desta vez já não achei tanta graça como da primeira vez. sinceramente não sei se vou ao terceiro…

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