Vamos Comprar um Poeta – Afonso Cruz

vamos_comprar_um_poetaComo é que um livro “tão pequeno” nos pode preencher tanto?

“Tenho milhas a percorrer antes de dormir”… é assim que me sinto no fim da leitura deste livro tão breve, tão rico, tão cheio de sentido. Ponho a tocar “O Homem do Leme” dos Xutos e Pontapés e faz-me tanto sentido esta banda sonora…

Quisesse Afonso Cruz cometer plágio e poderia ter chamado a este livro “O Sentido da Vida”, e para mim tudo estaria claro.

“Vamos Comprar um Poeta” foi a minha primeira leitura deste autor que tenho sucessivamente adiado. Cheia de vontade de ser do contra (não gosto nada de unanimidades) e de não gostar (ao contrário de todos os meus amigos da Roda dos Livros, que idolatram o escritor), não consigo… Fico rendida, mais do que à escrita, à forma como transmite as ideias. A economia de mercado, o mundo dos números, uma crítica aos nossos dias… E o desassossego da poesia. A inquietação da alma que move o mundo. O poder transformador do belo expresso em palavras. Inutilistas, ainda bem que persistimos.

“Vamos Comprar um Poeta” abriu-me uma caixa de Pandora (melhor, um frasco, como aprendi em ‘As coisas que os homens me explicam’): não vou comprar um poeta, vou dedicar as próximas leituras à poesia.

Belo, muito belo, este livro. Para ler e reler e reler! Na lista dos que não se emprestam!

E no fim… um vazio…

 

Excertos

“(…) Gostava de ter um poeta, e depois? Há muitos estudos que afirmam que ter um artista, um bailarino, um ator, ou mesmo um poeta, ajuda a combater o stress, a baixar o colesterol mau, o que nos torna cidadãos e profissionais mais produtivos, concentrados e eficazes. Ora bem, nada mais útil do que isso.” (…)

“Por acaso, o poeta acha que vegetais e frutas são o mais importante da pirâmide das necessidades?
Evidentemente que não.
É o quê, então?
É a liberdade.

Francamente… ” (p. 32)

(…)

“É que antes de adormecer faço abdominais e flexões e alongamentos com a imaginação, para aquecer as articulações e os músculos da fantasia. Não quero ter sonhos com mialgias de esforço.” (p. 65)

(…)

“Percebi que estava cada vez mais inutilista e que pensava em coisas só pela sua beleza e não queria saber do seu valor monetário ou instrumental.
Estava cada vez mais esquisita, como dizia o meu irmão.” (p. 66)

(…)

“As rugas são as cicatrizes das emoções que vamos tendo na vida.” (p. 76)

(…)

“A poesia, diz-me ele, transfigura o universo e faz emergir a realidade descrita com a absoluta precisão da ambiguidade. Nunca li um bom verso que não voasse da página em que foi escrito. A poesia é um dedo espetado na realidade.” (p. 87)

 

Sinopse

Gostava de ter um poeta. Podemos comprar um?
A mãe não disse nada, limitou-se a levantar a louça, quatro pratos de sopa, quatro colheres de sopa e informar os comensais, eu e o meu pai e o meu irmão, de que a carne seria servida de seguida, dentro de trinta segundos. O pai acabou de mastigar um bocado de pão, cerca de treze gramas, moveu os maxilares cinco vezes e inquiriu:
Porque não um artista?
A mãe disse:
Nem pensar, fazem muita porcaria, a senhora 5638,2 tem um e despende três a quatro horas por dia a limpar a sujidade que ele faz com as tintas naqueles objetos brancos.
Telas.
Isso.
Muito bem, disse o pai, compramos um poeta. De que tamanho?

Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das ações desinteressadas.

 

Caminho, 2016

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