As coisas que os homens me explicam – Rebecca Solnit

As coisas que os homens me explicam“As coisas que os homens me explicam” reúne um conjunto de ensaios, que se lêem como ficção. Algures por aqui vamos encontrar a origem de uma das palavras actualmente muito em voga – mansplaining, ou seja, uma situação em que os homens explicam às mulheres coisas que elas sabem e eles não…

Rebecca Solnit traça neste livro o retrato do feminismo moderno, longe das suas raízes, mas na sua senda, enquanto relato sobre a desigualdade de género.

Retratando a realidade dos Estados Unidos senti-me, várias vezes, distante das descrições feitas e muito feliz por isso, nomeadamente nos capítulos dedicados à violência sobre as mulheres, concretamente sobre o panorama das violações.

Existem, contudo, temas que são universalmente transversais, como o menosprezo, a condescendência, a descredibilização, o silenciamento e as mais diversas formas de violência física e psicológica…

E um delicioso capítulo dedicado a Virgínia Wolf com sugestões de leitura imperdíveis.

Passou recentemente na televisão uma campanha de publicidade de uma conhecida marca de perfumes (a propósito do dia da mãe) que poderia muito bem ilustrar este livro… “this is a men’s world”… porque sim, de facto, this is still a men’s world…

Uma última referência para a tradução de Tânia Ganho e para as belíssimas imagens que marcam a separação dos capítulos.

Um livro que recomendo sem reticências a todas as mulheres e homens de mente aberta porque um choque com a realidade nunca fez mal a ninguém! Um livro a ler até à derradeira nota!

 

Excertos

“Os homens explicam-me coisas, ainda hoje. E nunca nenhum homem me pediu desculpa por me explicar, erradamente, coisas que eu sei e ele não.” (p. 17)

(…)

“… adoro que as pessoas me expliquem coisas que sabem e me interessam, mas que ainda não sei; quando me explicam coisas que eu sei e elas não é que a conversa corre mal. ” (p. 21)

(…)

“… a violência é, acima de tudo, autoritária. Começa com a seguinte premissa: eu tenho o direito de te controlar.” (p. 33)

(…)

“Ela (Woolf) argumentava que devíamos resistir por princípio, mesmo que seja em vão.” (p. 91)

(…)

“… A carapaça da casa é uma espécie de prisão, encarcera tanto quanto protege, um invólucro de familiaridade e continuidade que pode desaparecer ao ar livre. Caminhar pelas ruas fora pode ser uma forma de compromisso social, inclusive de acção política, quando caminhamos em uníssono, como fazemos em sublevações, manifestações e revoluções, mas também pode ser uma maneira de induzir o sonhar acordado, a subjectividade e a imaginação, uma espécie de duelo de solicitações e interrupções do mundo exterior e o fluxo de imagens e desejos (e medos) do mundo interior. Por vezes, pensar é uma actividade de ar livre. E física. (ensaio de Woolf )” (p. 95)

(…)

“A tirania do quantificável é, em parte, a incapacidade da linguagem e do discurso de descreverem fenómenos mais complexos, subtis e fluídos, bem como a incapacidade daqueles que moldam as opiniões e tomam decisões de compreenderem e valorizarem essas coisas mais indefinidas.(…)” (p. 101)

(…)

“O feminismo é um esforço para mudar algo muito antigo, disseminadoe profundamente enraizado em muitas culturas – talvez em quase todas – espalhadas pelo mundo fora, em inúmeras instituições e na maior parte dos lares da Terra; e nas nossas mentes, onde tudo começa e acaba.” (p. 141)

 

Sinopse

Conjunto de textos em que a desigualdade de género é analisada através de diferentes manifestações de violência contra as mulheres, facilmente observáveis, mas quase sempre desvalorizadas pela sociedade em geral. Começando pelo tratamento condescendente, até ao silenciamento das mulheres: a descredibilização, a exploração, a agressão física, a violência, a morte.

Solnit começa por contar um episódio cómico, em que um homem lhe explica um livro que não leu e que foi ela que escreveu. Este episódio deu origem a um texto postado no blogue «TomDispatch» e que teve uma repercussão enorme. Foi cunhada a palavra mansplain para a situação em que os homens explicam às mulheres coisas que elas sabem e que  eles não sabem, chegando a ser considerada a palavra do ano em 2013.

 

Quetzal, 2016

 

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2 pensamentos sobre “As coisas que os homens me explicam – Rebecca Solnit

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