“A Purga” de Sofi Oksanen

A_purga

 

Acabar um livro e não começar outro porque a cabeça teima em continuar povoada pelas palavras e imagens nele contidas; um livro inquietante, algumas vezes mesmo assustador, mas capaz de nos capturar instantaneamente, inexoravelmente, como uma vaga que nos submerge. Apesar da perturbação, nalgumas situações chegando mesmo à náusea, nascida das realidades brutais narradas, torna-se impossível parar de ler. A escrita de Sofi Oksanen agarra-nos, sabotando qualquer tentativa de paragem da leitura. O estilo de escrita é cativante e a estrutura da narrativa é inteligente, muito bem engendrada, levando-nos sempre a querer saber o que virá a seguir. “A Purga” podia muito bem pertencer à chamada ficção distópica mas não pertence. E isto é de uma crueldade insuportável, pois as vidas e os factos criados pela autora são baseados na realidade. Não quero desvendar aqui muito da história deste livro e por isso limito-me a dizer que o seu foco é a violência sobre as mulheres e que gira em torno de uma idosa, vítima dos torcionários do regime soviético nos anos seguintes ao final da II Guerra Mundial, e de uma jovem caída nas garras das redes mafiosas russas de tráfico sexual dos nossos dias. Ambas são sobreviventes, lutadoras, cada uma a seu modo e no seu tempo e os fios das suas existências acabam por revelar-se interligados. Os detalhes mudam, os padrões dos comportamentos humanos violentos e as atrocidades repetem-se. Felizmente, também os padrões de resiliência se repetem. Há muitas dimensões em “A Purga”. Há laços familiares, amores e traições. Há também a História da Estónia no século XX, a luta constante pela liberdade e pela identidade de um povo desde sempre encurralado entre vizinhos poderosos e de ambições hegemónicas, a Rússia e a Alemanha. Isto torna-o também, de certa forma, num documento histórico, ao registar, sob a forma de ficção, aspectos fundamentais da História recente da Europa.

Este livro ganhou vários prémios entre os quais o Prémio Europeu de Melhor Romance e o Prémio Femina e agora percebo bem porquê. Andei durante meses a pensar em lê-lo, um pouco a medo por causa sua dureza, pressentida na sinopse, até que me atrevi a pegar-lhe. Não me arrependi. Este livro, sem dúvida alguma, merece ser lido.

Sinopse:

Em 1992 a União Soviética desmorona-se, e na Estónia é possível por fim saborear a liberdade e projectar o futuro. Todos migram para a capital e ninguém quer viver no campo. Ficam apenas os velhos, alguns bêbados e bandos de rapazes desordeiros. Aliide Truu, senhora idosa, vive alheada do mundo na sua casa numa aldeia despovoada, e passa os dias a ouvir rádio e fazer conservas de fruta. A aparente normalidade da sua existência é despedaçada numa noite de fim de Verão, quando a sua vida se cruza com a de uma jovem mulher que precisa desesperadamente da sua ajuda. Zara conta que trabalhava como empregada de mesa, e que anda fugida do marido violento. Nada disto é verdade. Ao inventar uma história para si, Zara espera conseguir esquecer o passado. Ao oferecer abrigo a Zara, também Aliide terá de confrontar o passado nebuloso, carregado de paixões, traições e vinganças. Para poderem sobreviver, ambas as mulheres terão de enfrentar e aceitar a verdade da sua história. E só então poderão também descobrir os inesperados laços que as unem.

As vidas de Zara e Aliide, e das gerações de mulheres que representam, desdobram-se sobre o pano de fundo da ocupação soviética da Estónia e compõem um mosaico da sociedade europeia dos últimos cinquenta anos: a repressão política, o tráfico humano, a violência sobre as mulheres. É diante deste inquietante cenário que a vida fervilha e se desenrola um incrível drama familiar, pleno de rivalidade, culpa, desejo e amor.

 

 

 

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