Tantos livros, tão pouco tempo…

Círculos

O tempo é um capataz implacável; os minutos, as horas e os dias escorrem por nós como água através das mãos, imparáveis. Os momentos dedicados à leitura são preciosos e invariavelmente “roubados” à grande trituradora da rotina quotidiana. Por isso, prefiro sempre ler em detrimento de escrever sobre as minhas leituras. Assim, resolvi fazer um “post” diferente; em vez de um, inclui três livros, aparentemente sem nada em comum, a não ser o enorme prazer proporcionado pela sua leitura. Referi-los-ei pela ordem cronológica em que os li sem qualquer hierarquia de preferência.

1 – “Duna” de Frank Herbert (edição da colecção Admiráveis Mundos da Ficção Científica do jornal Público)

Capa_Duna volume1.indd

Capa_Duna volume2.inddNós, humanos, somos feitos de muitas coisas; de ossos, carne e sangue, de emoções e percepções, de pensamentos e memórias. Também somos feitos de linguagem, de palavras, de nomes. Catalogamos e classificamos tudo, nada existe sem ter uma designação, um rótulo. Contudo, apesar da sua reconhecida utilidade, os rótulos são frequentemente redutores porque compartimentalizam, separam, fazem distinções que impõem limites que nem sempre nos permitimos ou escolhemos ultrapassar. “Ficção Científica” é um destes rótulos que afasta muitos leitores, uma desculpa para menorizar injustamente um género literário que nada tem de inferior. Aliás, penso que a boa literatura não tem género. Há obras extraordinárias e medíocres em todos os tipos de livros e a ficção científica inclui exercícios de escrita e de imaginação absolutamente brilhantes. “Duna” é seguramente um deles. O mundo criado por Frank Herbert é rico em detalhes e credível, as personagens são complexas e a história está bem concebida. A narrativa tem múltiplos níveis, tem alguns aspectos filosóficos e dilemas pessoais mas também tem acção e tecnologias imaginadas, no entanto plausíveis e talvez possíveis à data em que o autor a situa, cerca do ano 10.000. As viagens espaciais, por exemplo, quem sabe? Hoje ainda estamos a dar os primeiros passos para tal mas talvez venham a ser uma realidade do dia-a-dia no futuro. Assim, lanço aqui o desafio a quem ainda não leu “Duna” e a quem acha que não gosta de ficção científica: atravessem este portal e vejam por si próprios. Arrisco a dizer que não se arrependerão. Espero…

2- “O meu Michael” de Amos OzAO

Cabe aqui uma pequena confissão: Amos Oz é um dos meus autores favoritos. Aprecio imenso a forma como a sua escrita magnífica traduz e transforma o quotidiano e as vidas de pessoas comuns em histórias memoráveis capazes de nos envolverem e tocarem profundamente. A protagonista deste romance, Hannah, é uma personagem extremamente complexa, uma mulher cuja vida está longe de a preencher e que possui uma imaginação muito activa e um mundo interior rico povoado pelas suas leituras de adolescência. Hannah vive atormentada pelo desfasamento entre a realidade e o seu mundo imaginado, entre os seus deveres para com a família e a sua necessidade de aventura e de romance. Há uma tensão fortíssima ao longo de toda a narrativa que nos prende e, muitas vezes, nos tira o fôlego. Tudo se passa ao longo da década de 1950, nos primeiros anos após a fundação do Estado de Israel, em Jerusalém onde as marcas da guerra que levou à formação deste país estão ainda muito presentes. Uma viagem no espaço e no tempo que nos agarra inexoravelmente.

3- “Se não agora, quando?” de Primo Levi

Senãoagora_quando

Este foi o meu primeiro encontro com a obra de Primo Levi. Não creio que seja o último. Gostei mesmo muito desta história de coragem e resiliência indómitas. Gostei de tudo: da escrita e do desenrolar da narrativa, dos “personagens-cebola” cheios de camadas para desvendar e de aprender sobre o contexto histórico desse tempo. Um tempo em que na Europa se viveram dias que mais parecem saídos de uma ficção distópica; realidades tão obscenamente atrozes e cruéis que poderiam ser o produto de uma qualquer imaginação tortuosa. Mas foram reais, dolorosamente reais. Algumas pessoas foram capazes de reagir de modo diferente da maioria e resistiram corajosamente, lutaram para preservar as suas vidas e a sua dignidade. Este livro traz-nos essas pessoas, as suas forças, dúvidas e fraquezas e, acima de tudo, a sua enorme vontade de viver apesar de, à sua volta, tudo se ter desmoronado. Claro que as vidas criadas pelo autor são fictícias mas foram baseadas em histórias reais e é impossível ficar indiferente a elas.

Conclusão: o que une estes três livros? Formas de escrever cativantes, o confronto dos seres humanos consigo próprios, com as suas forças e fraquezas e com a coragem de prosseguir vivendo; a importância da imaginação para nos ajudar a continuar o nosso caminho, sobretudo em alturas de adversidade. E, claro, muito prazer na sua leitura.

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4 pensamentos sobre “Tantos livros, tão pouco tempo…

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