Quando fores mãe, vais ver – Ana Saragoça

9789896573911Quando dei por mim estavam várias pessoas a olhar e eu quase sem conseguir conter o riso em plena sala de espera do consultório médico. Foi assim durante praticamente toda a leitura desta jóia literária que se faz de “Pérolas do Folclore Materno”.

Uma regresso à infância ou talvez não, porque tal como a mãe da Ana também a minha ainda hoje recorre a muitas destas expressões e e também para a minha mãe ainda não cresci, apesar de já ter um filho adulto…

Mas mais do que ouvir, também eu dou por mim a repetir algumas destas pérolas. Melhor, já as ouvi repetidas pelo meu filho a um primo mais novo… Enfim… A tradição perpetuar-se-á e ainda bem.

Revi-me inteiramente nas palavras da Ana Saragoça e senti o livro como meu.

Um livro que se lê de uma rajada.

Recomendo, recomendo, recomendo!

Excertos

“Meus amigos, a agressão passiva é uma arte. Uma arte que as mães praticam com uma destreza inigualável. Digam lá, quantas vezes se sentiram desesperados com coisas que ouviram às vossas mães, sem no entanto conseguirem pegar numa ponta para lhes poderem responder à letra? É tremendo, não é? Se o Conselho de Segurança da ONU fosse constituído apenas por mães, nunca haveria governantes zangados: apenas muito, muito desiludidos uns com os outros.
O que responder, por exemplo, àquela admoestação que todos ouvimos quando não queríamos comer o que tínhamos no prato? Sim, o inevitável…

Com tanta criança a passar fome em África…” (p. 41)

(…)

“Eu avisei-te

Vá, quem nunca a disse que atire a primeira pedra. (…) Juntamente com a pérola vinha sempre uma expressão entre triste e resignada, como se eu fosse um caso perdido que deusnossosenhor lhe tinha dado como castigo de algum pecado desconhecido. Era o inefável:

Tu não me ouves…

Percebem a genialidade desta farpa? É que não era preciso ter avisado nada antes. Todas as desgraças que me aconteciam, todas as que lhe aconteciam e até algumas que aconteciam ao mundo, quiçá mesmo a fome em África, resultavam da minha recusa sistemática em acatar toda e qualquer palavra que saísse dos sábios lábios maternos. (…)” (p.44/46)

(…)

“E os gatos! As premonições desastrosas desde o início da gravidez devido a termos cinco gatos em casa! (…)
Quando por fim veio ao mundo um mocinho perfeito apesar da gataria, começou a preocupação seguinte: os pêlos. «Lá em Viana morreu um bebé porque lhe entrou um pêlo de gato para os pulmões» (…) Quando preciso de saber alguma coisa procuro na fonte que nunca me deixou ficar mal: os livros. (…) não resisti a contar à minha mãe que tinha lido que o melhor remédio para prevenir a asma era dar todos os dias à criança uma colherinha de pêlos de gato. O clarão de pânico que lhe atravessou o olhar até perceber que era brincadeira foi delicioso.” (p.97)

Sinopse

«Criar filhos exige doses gigantescas de paciência, estoicismo, resistência e imaginação. Ao cabo de milénios desempenhando primordialmente esse papel, as mulheres de todo o mundo acabaram por desenvolver um léxico quase comum, um glossário de frases feitas que todas ouviram às mães,e todas juraram que nunca repetiriam aos filhos – com os resultados que se conhecem.

«O vocabulário das mães é verdadeiramente um colar, mas não de pérolas. É mais daqueles a que se vão acrescentando penduricalhos ao longo da vida, sem nunca retirar nenhum. O folclore materno tem frases certeiras em todas as áreas e para todas as fases de crescimento dos filhos: infância, adolescência e idade adulta – embora, para as mães, o conceito de idade adulta nos filhos seja altamente discutível. E, claro, com a chegada dos netos, nunca perdem uma oportunidade de nos inundar de novo com a sua imensa sabedoria…»

Mãe há só uma

Mas cada uma contém em si toda a diversidade do mundo!

 

Planeta, 2013

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