“Raiz Comovida” de Cristovão de Aguiar

 

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“O ser humano é um verdadeiro poço de mistérios, pensei, bastam dez minutos de olhos fechados para contemplar aquela espantosa paleta de cinzentos.”

Haruki Murakami in “Crónica do Pássaro de Corda”

“A realidade oculta das coisas e da vida só pode ser decifrada por aproximação, com a ajuda da obra de arte, mesmo que esta seja incompreensível. (…)

No poema enigmático ecoa a voz do conflito resolvido.”

Jaume Cabré in “Eu confesso”

Dentre os blogs dedicados a livros e leituras que costumo espreitar existe um, chamado “7 Leitores”, onde li recentemente um belo texto sobre esta trilogia de Cristovão de Aguiar. (Aqui fica a ligação para esse artigo:http://7leitores.blogspot.pt/2016/02/relendo-cristovao-aguiar.html. ) E em muito boa hora! Doutra forma dificilmente chegaria a esta obra enternecedora e absolutamente brilhante da nossa literatura. “Raiz Comovida” é um tríptico constituído pelas seguintes partes: “A Semente e a Seiva”, “Vindima de Fogo” e “O Fruto e o Sonho” que nos transporta para as vivências de um rapaz e da sua freguesia, algures na segunda metade do século XX, ainda no tempo do Estado Novo. As suas páginas, percorridas por uma marca profunda de oralidade, estão preenchidas por uma escrita viva, vibrante e cativante, desfolhando-se numa sucessão de episódios do quotidiano, uns hilariantes, outros dramáticos e envolvendo o leitor naquela indescritível sensação de prazer que aquece o coração e a mente. E sendo toda a obra literária um espelho da essência humana, este “Raiz Comovida” faz, sem dúvida alguma, jus ao seu nome ao reflectir de modo belíssimo, através de palavras, tanto velozes e alegres como lentas e “marmaças”, as alegrias e as tristezas, os amores, anseios e ódios, a compaixão, a crueldade e a generosidade daquela gente, habitantes de um dado tempo e lugar. Mais do que açoriana e lusófona, esta é uma escrita verdadeiramente global, pois, ao olharmos para o recôndito de qualquer pessoa, não encontraremos sempre o mesmo? Aqui tudo isso está revestido das particularidades de S. Miguel rural daquele tempo, mas, sob a superfície borbulha o magma da eterna demanda humana pela dignidade e pela justiça e acima de tudo, por uma vida plena. Não pretendo resumir aqui o enredo deste livro, nunca seria capaz de o fazer e, assim, abaixo deixo alguns excertos, que espero, sejam capazes de espicaçar a curiosidade de futuros leitores.
Este “Raiz Comovida” “estremeceu a minha estante” mental. Mais um livro memorável para guardar e revisitar. Que bom!

Excertos:

“Aqui me encontro, num regresso sem chegada, porque não me lembro ou não me quero recordar de ter deste chão algum dia zarpado. Exactamente aqui, no quartinho do relógio, onde fui outrora parido e em múltiplas almas repartido. Neste instante vou-me entretendo a mordiscar a aérea e iluminada esteira de pó que os mortos e a ausência foram deixando atrás em diadema de estrelas em cata de outra Cassiopeia, com seu M de mãe ou de manto aberto, onde juntas possam de novo constelar-se.”

“Chegou a nossa casa, cachorra ainda, num Domingo de arraial de Império do Divino Espírito Santo, à boquinha da noite, nem na escola andava eu sequer. (…) Trouxe-a meu Pai ao colo, como se de uma filha se tratasse. Minha Mãe franziu o nariz, em matéria de cães não se perdia de amores. Muita festa para a festa diante de meu Pai, mas, por trás, ia resmungando com a canzoada e de vez em quando, à sorrelfa, o cabo da vassourinha-de –varrer, feita de pés de milho de vassoura, marcava o compasso de uma ária, caim, caim, caim, obrigada, está-se ouvindo ao contracanto de um cainhar ressentido…
A Girafa converteu minha Mãe. Ficou-lhe caída no goto e por lá se demorou até ao dia da sua morte, que também lhe custou um par de lágrimas doídas. Tal mudança operara-a a Girafa, que, desde a infância, se mostrara uma cachorrinha diferente. Não gania nem esgadanhava a porta do quintal durante a noite; não fazia as necessidades pelos cantos nem em cima dos capachos e passadeiras de espadana que cobriam o cimento e o ladrilho de certas divisões da casa. E, depois, dava ares de maior esperteza do que alguns que andavam nos estudos. Mais meiga e sã que certas criaturas que iam todas as manhãs à missa despejar a saquinha encardida dos pecados mortais e veniais, regressando a casa leves como penachos e prontas para cometerem as piores sem-vergonhices de se louvar a Deus…”

“As palavras eram pedaços de pão. Por vezes, pedras esquinadas que eu atirava, rasantes e zunindo, aos gargalos das galinhas, sem culpa, debicando contra as paredes revestidas de coucelos. Ficavam desmaiadas. Vinham a si depois de lhes mergulhar o pescoço bambo numa selha de água fria. As palavras não usavam ainda as máscaras e os disfarces do Entrudo sintáctico e semântico. Possuíam o chão de terra e conjugavam-se na alegria fundamental do verbo crescer, saboroso mistério de seiva silenciosas, subindo, subindo. Eram a casa térrea juncada de caruma, rescendendo a resina e maresia. Nelas se instalava o forno, inchado de labaredas, que o esborralhadouro percorria como um falo florescente, embandeirado na ponta com trapos escorrendo águas. Nas palavras não poderia caber a morte, esse substantivo subentendido de coisa nenhuma.”

“De súbito, a escola. Desdobrou-se como um mapa sobre a mesa da melancia. A sala de aula, exígua e bafienta, onde as quatro classes se desunhavam. Na parede defronte, o quadro desfazia-se em gargalhadinhas de giz, escarnecendo das dores de barriga ao procurarmos resolver o enunciado de problemas complicadíssimos, tanques volumosos para onde desvairadas torneiras despejavam a água de nossas lágrimas que o senhor professor mandava reduzir a milímetros cúbicos. Por cima do quadro, o crucifixo de latão, Cristo ladeado pelos dois ladrões, Carmona à esquerda; Salazar à direita. Parecia uma casa de reclusão. Valiam-nos as três janelas de guilhotina, através das quais desamarrávamos os cabritinhos dos olhos por sobre a sobejidão do mar do norte. O Cidério dizia que para lá do horizonte soldado ao mar havia um país onde as horas andavam ao contrário das nossas. Pôs logo a gente a imaginar se a quarta classe tivesse o dom de para lá ir de manhã e regressar à tardinha, no momento em que o senhor professor, estafado e quezilento nos mandava embora… Mas o horizonte estava soldado ao mar, só a poder de malho e talhadeira se poderia rasgar. Havia de pedir a meu Pai, íamos no barco a remos do Serafim das Calhetas, até ao local onde o céu se cola ao mar. Aí, com o auxílio da forja e de outra ferramenta, meu Pai e o malhante haviam de conseguir rebentar o paredão do horizonte.”

 

 

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