O Livro de Aron de Jim Shepard

Sem saber bem por onde começar, visto que ainda tenho as ideias a fervilhar dentro de mim, falo-vos primeiro da capa: num tom suave, nada agressivo, com imagens de algumas crianças indistintas a caminhar, sugere uma leitura calma, pacífica, tranquila.

Através da sinopse, dei-me conta que talvez não fosse bem assim. O tema, um dos meus preferidos, é pesado: o Holocausto, vivido e contado através dos olhos de uma criança. Não sendo o primeiro livro que leio onde uma criança nos conta o que viveu nessa época de terror, poderia pensar que não iria acrecentar nada de novo… Mas isso não aconteceu e fui-me apaixonando aos poucos por esse miúdo, contador de histórias, da sua e das que se cruzaram com ele.

Aron era uma criança judia desastrada, de baixa estatura para a sua idade, triste e alheado de tudo o que não lhe dizia respeito e com muitas dificuldades de aprendizagem. Em casa, a sua alcunha era Sh’maya, que em hebraico quer dizer “Deus ouve”, e tinha sido dada pelo seu tio que, à laia de repreensão pelos desastres que fazia, dizia-lhe: “Olha que Deus ouviu!”. Pertencia a uma família pobre. O que nos conta sobre tudo o que foi sendo retirado ao povo judeu e à sua família, era como se não o afetasse muito. Indiferença? Ou forma arranjada para se proteger?

O livro é pequeno, a escrita fluída e, no entanto, não se lê tão rapidamente como parece ou pelo menos temos de nos manter concentrados. Tal como na mente de uma criança que saltita de um lado para outro, também aqui, no final de uma frase, começa outra com um assunto diferente o que nos obriga a uma atenção redobrada.

No decorrer do livro, com a perseguição ao povo judeu, quando se encontram em Varsóvia, já no gueto, Aron cresce interiormente, aprende a defender-se, a socorrer a família. Muitas das vezes é ele, com o contrabando e os seus roubos, que a alimenta. Aron nunca foi um miúdo popular e mesmo no seu grupo de amigos dentro do gueto isso é notório. Não quer ser um herói. A única coisa que quer é que o deixem em paz. E quer comer e parar de ter piolhos. Porque a fome é muita e as comichões também. Isso não acontece, claro, e seguimos o desenrolar da sua história apreensivos. Como consegue ele sobreviver? O que precisa de fazer para tal?

Gostei muitíssimo desta história que interlaça este personagem fictício com acontecimentos e pessoas verídicas como foi o caso de Janusz Korczak, também conhecido por Senhor Doutor, médido e pedagogo que tinha a seu cargo um orfanato no gueto.

Recomendo muitíssimo esta leitura!

Terminado em 20 de Março de 2016

Estrelas: 6*

Sinopse

Pela mão do pequeno Aron, somos levados a conhecer a Polónia de 1939, onde ele e a família vivem. Pouco tempo depois, enquanto judeus, são conduzidos ao gueto de Varsóvia, onde a crueldade, a fome e a doença destroem as vidas de quem aí foi aprisionado. Porém, Aron e um grupo de amigos conseguem ajudar as famílias, esgueirando-se do gueto para fazer contrabando. Num relato comovente e intenso, Jim Shepard mostra-nos, através da voz de uma criança, como é possível manter a dignidade humana nas condições mais adversas.

 

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