«Romance» de Helder Macedo – Opinião

Tento compreender a escrita de Helder Macedo, lendo sobre o mesmo. Leio que a sua obra é pouco acarinhada em Portugal, mas largamente estudada no Brasil. Efectivamente não é fácil ler este escritor poeta que ao longo deste extenso poema nos relata um romance complexo e cheio de encruzilhadas, partindo do poema renascentista de Bernardim Ribeiro, incluindo partes do mesmo neste seu «Romance»

Não é de fácil compreensão a torrente de ideias, de supostos diálogos, de amores e desamores vividos por quem se encerra nas palavras que compõem este romance em forma de sonho, mas até do sonho duvidamos, tal como duvida de si mesmo o personagem, o narrador e as palavras com que compõe este amor pessimista e fatal, fazendo o leitor nunca ter a certeza do que lê.

“sem aquela ilha

sem a menina de tempo antigo

a dizer-lhe

ou ele a dizer-se

como se fosse ela a dizer

no sonho

entre as duas margens da estrada

como um rio

em construção”

Em construção fica também o texto, que ora se monta em desejos claros, ora se desmonta em duvidas e pensamentos sombrios, de dois enamorados, um, talvez mais inexperiente que o outro… numa constante questão sobre de quem é o sonho que sonham, se é que sequer sonham…

“fosse uma fantasia solitária

não uma mudança acontecida

não a metamorfose

desejada

(…)

do amor desabitado

no silêncio”

Obscuro, hermético e labiríntico, é assim que consigo sentir e ler a narrativa desconexa de Macedo, percorrendo o rio que acompanha a acção, tentando contornar as duvidas que ficam em nós, leitor, mas sedentos de querer perceber se este amor se consumou, se foi real, se ainda há amor, se a violência das palavras e a frieza intermitente escondem uma verdade violenta, abusiva… uma verdade dura que só um poema a tornaria mais aceitável, mais bela e logo menos verdadeira?!?

Mais para o final, intensifica-se a ausência, a fuga e todo o desencontro, o silêncio e as direcções opostas, ainda assim, há o passado que trilha o futuro, num futuro que não pode existir para vidas que ainda não se podem viver ou que foram vividas sem terem tido vida…

“um poema de silêncio

um romance que fosse

o que nele não fosse escrito

um olhar a olhar um olhar

a olhar em direcções opostas”

*

Helder Macedo em entrevista no I e na RTP

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