«O Primeiro Muçulmano» de Lesley Hazleton – Opinião

“(…) um rapaz imbuído do rude igualitarismo da vida beduína.” talvez seja uma das frases mais importantes para o rumo biográfico que Lesley Hazleton dá a este relato que narra a história de Maomé ou Muhammad, o primeiro dos muçulmanos, dando um lado mais humano, retirando a divinização e a idolatração que séculos volvidos sobre o nascimento do Islão atribuíram ao seu profeta.

“(…) trabalhando a história oral perfeitamente cientes de que tanto o tempo como a devoção tendem a distorcer a memória, desfocando a linha divisória entre o que foi e o que devia ter sido.”

A teóloga por acaso, como a própria se intitula no seu blogue, considera-se também especialista e uma estudiosa dos três monoteísmos e pretende nos seus últimos dois livros explicar a crise de sucessão após a morte do profeta, que ainda hoje alimenta o cisma sunitas-xiitas. No entanto, neste «O Primeiro Muçulmano», a autora minuciou ainda mais a sua pesquisa e estudo do Alcorão para perceber quem foi, como homem, o tão invocado profeta.

“O que emerge é algo mais grandioso, precisamente porque é humano, a ponto de a sua vida real se revelar digna da palavra lendária.”

É atrás dessa lenda que seguimos por mais de trezentas páginas que para mim foram acompanhadas com tantas outras, que ainda leio, conhecendo um outro lado mais romanceado e lírico pelas palavras de Marek Halter e o seu épico «As mulheres do Islão», já que, e isso a biografia também o diz, o impacto de Cadija foi enorme para a vida a que Maomé ascendeu. Tal como mais tarde a filha Fátima substituindo o filho homem que não sobreviveu, Qasim, ou a mulher final, Aischa, pela mão de quem os fieis receberam o Alcarão. Mito, lenda ou verdade, é interessante cruzar os diversos livros e perceber toda a adoração à vida de um homem que precisou de tantos outros para firmar a sua vontade de levar a palavra divina mais além, apelando à unidade numa comunidade total, a Umma, reconhecendo uma força além da compreensão humana.

“Como podia o conceito de unidade divina resultar em tanta desunião humana?”

É dessa mesma desunião, sectarismo, luta e segregação que resulta o conteúdo essencial que Hazleton pormenoriza ao longo de mais de duzentas páginas. Inicialmente mostra Muhammad desde o seu lugar incerto como órfão à sua posição de homem respeitado por união a Cadija, até ser considerado um hanifs, que pregava uma mensagem onírica e sem importância, fruto de uma meditação pouco valorizada. No entanto, a sua mensagem começa a alastrar e a não agradar à autoridade imposta por uma lasca intelectual da sociedade de Meca que depressa passa a tolerá-lo.

“(…) o facto de alguma coisa precisar de ser tolerada implicava que continuava de algum modo a ser ofensiva.”

E Maomé era ofensivo para o snobismo e as tradições dos clãs da época. Mas para ele, perante a poesia e o efeito paralisante da aparição, era incapaz de não tomar consciência de que era um escolhido. Muhammad, o mensageiro, inicialmente em batalha interior experimentou o medo e a dúvida, aspectos essenciais da verdadeira fé, que juntamente com a força e o “Eu acredito!” de Cadija deram a incitação necessária.

A submissão que a palavra do mensageiro continha trazia em si uma instabilidade e muitas dúvidas face à interpretação alargada que a língua árabe podia conter, tal como ainda hoje se revela difícil de interpretar e afirmar o que contêm as palavras de cada sura. A própria autora, em diversas entrevistas e palestras, fala dessa dificuldade e da abrangência de significados da voz alcorânia, do árabe em si.

“(…) o árabe joga com as palavras, tomando uma raiz triconsonântica e criando sobre ela o que por vezes parece uma série infinita de significados.”

Desde sempre divididos e considerando as palavras de Maomé como um ataque aos «costumes dos pais» este fora expulso e exilado, gerando um conflito intertribal, opondo clãs e suas descendências, crivando desde aí a luta eterna com o clã de Abu Sufyan, a elite coraixita e a tribo, clã hachemita de Maomé.

O relato avança pela hégira e o desenraizamento das suas origens, deixando Meca, sem esquecer a qibla e a longa batalha para impor o Islam até à peregrinação de retorno a Caaba e as tentativas de lhe boicotarem esse retorno.

«Combatei, pela causa de Alá, aqueles que vos combatem; porém, não pratiqueis agressão, porque Alá não estima os agressores.”

A biografia desenvolvida por Lesley Hazleton é a meu ver, bastante detalhada e até complexa, cria um desafio para entendermos um homem que quebrou com o mundo que o rodeava, impondo uma nova fé, obrigando a um novo início que homenageava o seu sonho inicial, a umma!

Lê-se quase como um romance, largamente descritivo, mas recheado de detalhes suculentos e reveladores, alimentando a curiosidade do leitor até ao fim, mesmo que, fiquemos com a total certeza que existem metáforas e enigmas associados a toda esta lenda e ao Alcorão propriamente, que nos ultrapassam.

Talvez seja mesmo uma questão de fé inquestionável.

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