«Nós os dois» de Andy Jones – Opinião

Atenção!!! Alerta!!! Esta opinião pode conter dicas que revelam o que todos já sabem… que eles foram felizes para sempre… mas isso não revela nada, pois não?

«O CHÃO É CAMA»

O chão é cama para o amor urgente, 

amor que não espera para ir para a cama.

Sobre tapete ou duro o piso, a gente

compõe de corpo a corpo a úmida trama.

E, para repousar do amor, vamos à cama.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, in «O Amor Natural» 


capa-sumaChegaram juntos, «Nós os dois» e «O Amor Natural», um romance de Andy Jones e o poemário erótico de Carlos Drummond de Andrade. Li ambos, em paralelo, por isso não resisti a abrir esta opinião com um poema, já que a urgência do amor chega à vida de Fisher e Ivy como algo que não podia esperar e ao longo de duas mãos cheias de meses, a vida de ambos muda completamente.

Ainda antes de abrirmos o livro, lemos: “apaixonar-se é a parte fácil…” e mais ou menos é assim que começa, arrancando com um primeiro capítulo muito bom, comigo a rir e a pensar no caricato de assistir ou promover uma cena daquelas.

Durante as primeiras páginas é o clássico da paixão ardente e da cama como principal cenário, até chegar à suposta hora da verdade.

“- Nós… nós precisamos de falar – diz ela, e, dentro do meu peito, alguém corta o fio que me mantém o coração suspenso atrás das costelas. Solto, o órgão cai e rebola para um ponto mesmo por detrás do meu umbigo, onde fica a pesar como uma pedra.”

A cena não é nova, mas a imagem criada pelas palavras, tão bem escolhidas, faz a diferença.

Confesso que não sou entusiasta deste género de romance, guardo sempre para os filmes, já que aquando destas leituras passo o tempo a imaginar as cenas e claro, o elenco. E a banda sonora e se a adaptação é bem feita… e por aí.

Para este, não sei porquê, pensei no Ben Stiller, estou completamente a vê-lo nesta cena:

“Se puseres um berlinde num frasco sempre que fizeres amor no primeiro ano de um relacionamento, e depois, removeres um berlinde sempre que fizeres amor a partir daí, nunca consegues esvaziar o frasco.”

E até nas cenas de trabalho, entre marcas de papel higiénico e tampões…

Os meses vão decorrendo e a vida atribulada do casal é composta por outras personagens igualmente complexas como El e Phill, as famílias de ambos, os seus respectivos trabalhos ou ainda Frank ou Suzi que nos deixam a tentar adivinhar possíveis acontecimentos que mudem o rumo do enredo. É exactamente essa mudança de rumo que quando acontece eu não estava à espera e me fez, no final, terminar o livro com muito agrado. Toda o lado humorístico de Fisher não deixava adivinhar aquele final, pelo menos eu nunca me inclinei para tal e é como se a narrativa ganhasse toda uma nova dinâmica, triste, fria, vívida e muito mais real que tudo o que aconteceu até ali e aí sim eu fiquei fã e li as últimas cem páginas com muito mais crença neste amor que inicialmente me parecia meio farsa e com alguma falha comunicativa.

Para terminar não revelo nada do que contribui para o final, mas deixo o lado humorístico e um poema que depois fará sentido quando perceberem as coisas que Fisher aprecia em Ivy.

“(…) Rezo para que a Ivy ainda me ame. Mas é impossível para por ali; rezo para que os meus bebés nasçam saudáveis, rezo pelas minhas sobrinhas, Hector, por Maria, Frank, Esther, Nino, El, Phill, Joe (…) porque deixar alguém de fora equivale a pedir a Deus para não olhar por eles. Estou quase a começar a petição por batatas assadas estaladiças (…) quando o padre nos faz levantar. E deve ser assim que eles nos apanham – esta brincadeira da oração é viciante, uma pessoa não consegue enfiar tudo numa única sessão e é obrigada a voltar.”

*

«MULHER ANDANDO NUA PELA CASA»

Mulher andando nua pela casa

envolve a gente de tamanha paz.

Não é nudez datada, provocante.

É um andar vestida de nudez, 

inocência de irmã e copo d’água.


(…) CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, in «O Amor Natural» 
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