«A Amiga Genial» Elena Ferrante :: Opinião

Fiquei com uma ideia agridoce e um sentir contraditório sobre este primeiro volume de «A Amiga Genial».

Lina e Lenú são quase como um boneco sempre em pé, funcionam num jogo do gato e do rato… no início da amizade, quase ainda sem o ser, ora uma se afastava ora outra se aproxima. É enigmática e chega a ser depressiva a dependência de uma e a independência de outra.

“Era um receio antigo, um receio que nunca me passara: o medo de que, perdendo bocados da vida dela, a minha perdesse intensidade e importância.”

Estranha amizade que pauta, até ao fim, este primeiro livro, de uma tetralogia que pretende revelar a vida de ambas até ao desfecho, penso eu que assim seja, com que nos acenam no prólogo.

Gostei bastante da forma como Ferrante começa a desvelar a amizade, o capítulo da Infância, é realmente superior ao da Adolescência, já que os episódios são mais caricatos e adequados à idade das meninas ou então foram certos excertos da narrativa que me cativaram mais neste arranque.

“Também Lila a certa altura me parecera bonita. Geralmente, a bonita era eu. Ela, pelo contrário, era seca como uma anchova salgada, exalava um cheiro bravio, tinha uma cara comprida, estreita nas têmporas, apertada entre duas faixas de cabelo liso e negro. (…) Lila é mais bonita do que eu. Portanto, eu era a segunda em tudo. Fiz votos para que ninguém se apercebesse disso.”

A dependência de Lenú e a procura constante de aceitação por parte de Lila, parece-me condicionante e sufocante, mas na infância, parece-me justificável, pois Lila emanava uma aura de guerrilha, fazendo frente às adversidades do bairro e da condição pobre de ambas, promovendo um certo crescimento às personagens, mais tarde na adolescência, cansou-me um pouco, queria vê-las crescer e ter outras preocupações. Ainda assim, a densidade dada a ambas é interessante se formos a pensar nas cenas dos próximos volumes.

“(…) ouvimos o ruído da destruição ao longo de vários dias: as árvores estremeciam, emanavam um cheiro a madeira fresca e a verdura, fendiam o ar, tombavam no chão depois de um longo resmalhar que parecia um suspiro, enquanto ele e os outros serravam, rachavam, extirpavam raízes que exalavam um odor a subterrâneo.”

Foram momentos descritivos como este que me cativaram na escrita de Ferrante, mas a mesma não me agarrou de forma viciante, antes pelo contrário, por vezes fatigou-me, senti-me no meio de uma novela cheia de contornos e episódios meio infantis e repetitivos, no entanto, a autora é muito boa em avisar o leitor de que algo decisivo e modificador vai acontecer, como que nos preparando para uma reviravolta. Ainda assim não considero que tenham existido muitas reviravoltas, a amiga genial para mim foi sempre Lenú e minha suspeita inicial, mantêm-se até ao final, aliás, mesmos nas últimas páginas e justificando a minha ideia existem dois, três parágrafos brilhantes, daqueles que gostava de ter encontrado mais durante todo o livro.

“Nunca a tinha visto nua, envergonhei-me. (…) Nessa altura foi apenas uma tumultuosa sensação de inconveniência necessária (…) a violenta emoção que te domina, e por isso te obrigas a ficar, (…) sobre o pavimento irregular manchado de água, e agita-se-te o coração, inflamam-se-te as veias. (…) Tive sentimentos e pensamentos confusos (…)”

Fica também em aberto o prólogo enigmático «Apagar o rasto» que foca, desde o início, o sentido do leitor em anos mais avançados da vidas destas duas amigas, instigando-nos a persegui-las pelos quatro livros procurando o tumulto de uma idade mais madura, na espera por encontrar uma Ferrante mais cáustica e genial como aqueles parágrafos do capítulo 57.

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