“Judas” de Amos Oz

_judas_amos_oz

 

“Quando era criança, queria crescer e ser um livro. Não um escritor, mas um livro: podiam-se matar pessoas como formigas. Escritores também. Mas os livros, mesmo que os destruíssem sistematicamente, restaria sempre algum exemplar perdido nalguma prateleira, no fundo de alguma estante esquecida de uma biblioteca longínqua, em Reiquejavique, Valladolid ou Vancouver.”

Amos Oz in “Uma História de Amor e Trevas”

“Caminho para a liberdade com o corpo amarrado pelos meus próprios pensamentos”

Márcia Balsas in “Tempo vazio” (“Desassossego da Liberdade”)

Antes de mais, uma declaração de interesses: Amos Oz é um dos meus autores favoritos. Deixei-me cativar irremediavelmente pela sua escrita através de “Uma história de amor e trevas” que ocupa um lugar destacado na minha estante mental de leituras memoráveis. Aprecio imenso a forma como este autor constrói as suas personagens frequentemente ambíguas e vulneráveis, tanto física como psicologicamente, e também a sua capacidade para contar histórias embebidas numa certa atmosfera do quotidiano. Um quotidiano quase sempre ensombrado pela violência resultante do longo conflito entre Israel e a Palestina impondo assim um confronto em primeira mão com o ódio, a morte e a dor da perda irremediável dos que habitam os nossos afectos. Em “Judas” tudo isto está muito presente sentindo-se também uma atmosfera de impasse, de uma tensão quase sufocante, que atormenta Samuel, Atalia e Gershom, essencialmente recolhidos em casa durante o inóspito Inverno de Jerusalém mas sobretudo presos nos seus universos mentais, incapazes de esquecer e prosseguir. Dos três apenas Samuel parece ter ainda uma certa esperança de algum tipo de redenção pois, apesar de rejeitado pela namorada e incompreendido pelos pais, acaba por perceber que tem de sair daquela casa de modo a procurar uma solução para o seu próprio impasse. Este é não apenas profissional mas também pessoal pois, mais do que acabar a sua tese sobre as relações entre judeus e cristãos e sobre o papel de Judas no aparecimento do Cristianismo, Samuel procura o sentido da realidade e o seu lugar no seu mundo. No final, o impasse, tal como o conflito Israel-Palestina, permanece mas há uma janela de esperança que se abre porque Samuel decide finalmente iniciar a sua busca.

A escrita de Amos Oz continua como sempre, ou seja, maravilhosa, acutilante, irónica e corajosa e o capítulo sobre Judas é brutal e comovente. A forma como o autor aborda o tema da traição e o usa para ilustrar o facto incontornável de que tudo nesta existência pode e deve ser visto por múltiplos ângulos e não apenas por aquele que é mais imediato ou mais fácil é brilhante. Subtilmente, é-nos mostrado que o fim da violência e do ódio só pode acontecer através do respeito e da aceitação do outro e que tal é fulcral para todos. Sem isso, resta apenas uma espiral de morte imparável até que deixe de haver alguém para prosseguir esse ciclo vicioso.

Excertos:

“Sobre tudo aquilo pairava o silêncio de uma noite fria de Inverno. Não era um silêncio do género dos silêncios transparentes, que nos chamam e incitam a juntar-nos a eles, antes um silêncio indiferente, antigo, um silêncio que pairava de costas para nós.”

“E digo-lhe ainda, apesar de tudo o que lhe disse antes, que abençoados sejam os que têm sonhos e maldito seja aquele que lhe abre os olhos. Pois ainda que os sonhadores não nos salvem, nem eles nem os seus discípulos, a verdade é que sem sonhos e sem sonhadores a maldição que pesa sobre nós será sete vezes maior. Graças aos sonhadores talvez nós, os lúcidos, sejamos um pouco menos empedernidos e desesperados do que seríamos sem eles.”

“O verdadeiro mal consiste em que, no fundo dos seus corações, os oprimidos sonham em tornar-se opressores daqueles que os oprimiram. Os perseguidos aspiram a ser perseguidores. Os escravos a serem senhores.”

“A vida é uma sombra que passa. Tal como a morte. Só a dor não passa. Continua para sempre.”

Sinopse: O mundo do jovem Samuel Ash está a entrar em colapso: a namorada abandona-o, os pais declaram falência e ele vê-se obrigado a procurar trabalho, abandonando os estudos na universidade e interrompendo a sua tese de doutoramento – um tratado sobre a figura de Jesus aos olhos dos judeus. Nesse momento de desespero, Samuel encontra refúgio e emprego numa antiga casa de pedra situada num extremo de Jerusalém. Durante algumas horas diárias, a sua função é servir de interlocutor a Gershom Wald, um septuagenário com uma vasta cultura. Mas aí mora também Atalia Abravanel, uma mulher enigmática e sensual. Na aparente rotina da sua nova morada, o tímido Samuel sente uma progressiva agitação causada pelo desejo que Atalia desperta nele, mas também pelos mistérios que o rodeiam: Quem é realmente Atalia? O que a liga a Gershom? Quem é o dono da casa onde vivem? Que histórias escondem aquelas paredes? Ao mesmo tempo, Samuel retoma a pesquisa para a sua tese, e a misteriosa e maldita figura de Judas Iscariote – a suposta encarnação da traição e da maldade – vai absorvendo-o irremediavelmente.

 

Anúncios

3 pensamentos sobre ““Judas” de Amos Oz

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s