O Coro dos Defuntos de António Tavares

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Portugal rural e Portugal no mundo visto de uma maneira deliciosa e delirante. Nem o facto de haver um glossário no final do livro, que consultei afincadamente mas menos vezes do que previa, me fez desistir.

Há toda uma panóplia maravilhosa de personagens, a avó mística e meio maluca que tanto fazia partos e trazia vida à aldeia como era chamada para lavar e vestir os mortos.

A Rainha que morreu três vezes mas foi viúva muito mais vezes do que essas e que tinha uma irmã, que ao contrário dela era “seca e comprida como um rabo de bacalhau”.

Manuel Rato rapaz excêntrico, expulso do seminário por ler livros proibidos, que andava pelos montes, “Os caçadores viam-no pela noite, andando e saltaricando como um lobo, e pensavam que lhe tinha dado para a licantropia” e falava sozinho, “Uma melopeia interior que parecia um zumbido, como se tivesse engolido uma cana de toque ou um vibrante berimbau”, emigra para os EUA, volta, desaparece, volta outra vez, desaparece novamente…

Chichona a velha anafada ainda bonita que tinha sido prostituta na capital e acaba assassinada dando um mote de mistério à história.

Júlio Peixeiro que trazia as novidades à aldeia junto com os carapaus e as cavalas.

Zé Violeiro que quando deixou de beber perdeu a afinação dos cavaquinhos e violas, “Os tocadores queixavam-se do mau som que deles saía, um estalo quebradiço em que as notas pareciam trocadas” e assim abandonou as duas coisas de que mais gostava, a música e a branquinha.

Olivita a coleccionadora de santinhos que desaparece da aldeia para voltar toda emperiquitada a vestir meias de náilon, coisa nunca usada pelas outras mulheres da aldeia.

Tritão, o dono da tasca, comprou a primeira televisão e a partir desse dia a aldeia não voltou a ser a mesma.

O padre Sebastião que dizem é o pai do Manuel Rato e outros tantos personagens cada qual com os seus dramas a contribuir para a história alguns com morte e mistério. Mas os meus preferidos são o Labruaco que vivia das pedras e o Fogueteiro, negociante de explosivos. Juntos faziam uma sociedade e quando o primeiro homem chegou à lua o consenso foi geral: “Não passa de um calhau redondo, dizia. É boa para o Labruaco e o Fogueteiro irem para lá fazer rebentamentos!”

Uma das coisas que adorei neste livro foi o facto do autor nos dar pontos comparativos do que se passa no mundo com o que se passa na aldeia e em Portugal. Quando Io Apoloni está na capa da revista Plateia em Munique são assassinados atletas olímpicos israelitas. Na aldeia “após TV” discute-se porque não há estradas no espaço, no Chile morre o presidente. Quanto se começa a desobedecer ao regime e se canta canta Grândola, Vila Morena estreia A Golpada com Robert Redford e Paul Newman. Na capital estreia o filme Jesus Cristo Superstar mas “aquele Cristo do rock, de estilo pop e urbano, não era dali. O da aldeia estava bem preso à cruz e nunca de lá saía. Sofria a todo o instante e as suas chagas sangravam todos os dias”. E quando Paulo de Carvalho vai à Eurovisão cantar E depois do Adeus quem ganha são os Abba com Waterloo: “Para os homens da aldeia era unânime que, se os outros mandavam gajas boas e nós uns tipos manhosos, haveríamos de perder sempre.”

E finalmente o título explicado em duas frases que eu achei hilariante:

Não se pense que quando se enterra um cangalheiro tudo se passa tal como com o comum dos mortais. Os notabilíssimos homens da cangalha são recebidos em ovação no além e esperam-nos todos os que eles ajudaram a enterrar.”

 

 

 

 

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