Bem-vindos a Esta Noite Branca – Gonçalo Naves

350_9789892061405_bemvindos_a_esta_noite_brancaDesde que soube que o Gonçalo Naves tinha publicado um e-book que o quis ler. Mas adiei. Depois veio o livro físico e a vontade aumentou, que eu gosto mesmo é de livros com páginas de papel, que se moldam nas mãos e se podem cheirar. Continuei a adiar. A minha procrastinação era acompanhada pelos excertos do livro partilhados nas redes sociais. O meu interesse aumentava.

Um dia, ainda eu adiava o que a partir desse dia foi inadiável, o Gonçalo convidou-me para apresentar o livro. Fiquei muito surpreendida (em choque, vá) e assustada (aterrorizada, pronto) com a ideia de falar em público. Então decidi aceitar de imediato (não faz sentido, eu sei), porque se pensasse muito acabava por dizer não. E porque, apesar do receio (terror), eu fiquei muito feliz com o convite.

Achei que leria este livro como nunca tinha lido nenhum outro, que absorveria cada página com o propósito de construir um discurso verbal sobre ele. Antes de começar pensei em como o leria sem esse compromisso. Sinceramente acho que não seria uma leitura muito diferente, pois acabei por me deixei embalar pelas palavras e, lendo e relendo passagens favoritas, não pensei muito na apresentação.

Bem-vindos a Esta Noite Branca lê-se de uma penada mas eu recomendo moderação. Recomendo que se demorem nas frases, que as leiam várias vezes antes de mudar de página, sobretudo as preferidas, aquelas que vão querer que a memória não apague, e acreditem que serão bastantes. Possivelmente ficarão tão surpreendidos, como eu, com a maturidade da escrita do Gonçalo. Num estilo desafiante, que não esmorece, a leitura é estimulada pela complexidade da escrita e pelas múltiplas possibilidades de interpretação oferecidas pelo autor. O leitor não descansa, entrega-se.

Muito mais do que o conteúdo, destaca-se a forma. A história de Vasco e da sua família é comum, não há surpresas ou truques para agarrar o leitor, os acontecimentos são reais. Vasco nasce com um problema de saúde raro, para o qual os médicos não têm resposta ou solução. Os pais sofrem durante toda a infância do menino, que não reage, passando anos como um vegetal. Toda esta dinâmica é criada para explorar sentimentos, para ir ao fundo do sofrimento e impotência dos pais. E depois é como um novelo de dor que se alastra aos avós maternos e paternos, e que envolve toda a família em observações e considerações.

Atribuí uma enorme importância ao narrador, por ter a particularidade de assumir várias vozes. O narrador cria um forte elo de comunicação com o leitor, apesar de ser móvel. É a voz do pai, da mãe, dos avós e até, a dada altura, do próprio Vasco. É provocador e manipulador, diz o que pensa sem receio do julgamento, e sem diplomacia. É cru e real. É muitos dos nossos pensamentos, aqueles que por vezes preferimos não assumir. É nos comentários e opiniões do narrador (em qualquer das vozes) que começa a reflexão do leitor. É na dureza das palavras que cada um dos leitores constrói, de forma muito própria, o seu percurso por este livro.

Bem-vindos a Esta Noite Branca está escrito de forma corajosa. A complexidade das relações familiares é desenvolvida até ao âmago, dissecando perspectivas e contrapondo opiniões.

O autor escreve com uma liberdade admirável sobre a doença e sobre a morte, sem receio de se perder nesse vazio. E não se perde. Desenvolve a aprofunda. Expõe e oferece reflexões como pontas soltas que o leitor pode puxar e continuar a trabalhar, sempre a pensar.

Senti que não há temas difíceis ou proibidos para o Gonçalo. Quem escreve deste modo denso e intenso não pode parar.

“(que será de mim quando se acabar o dia e a noite me trouxer a incerteza de todas as horas? O tempo esvazia-nos de tudo, só de tormentos nos vai enchendo. Por mais que demore, e que pensemos que não, chega sempre a altura de não esperarmos mais nada, de sermos só nós com nós mesmos.

Há pessoas que se vão embora de nós. Se calhar é-nos isso pior que morrerem, não que se deseje a morte a alguém mas a verdade é que quando alguém se vai embora de nós e continua presente nos outros é como se nos passasse a flutuar por cima da cabeça e nos acompanhasse para tudo o que é sítio. Flutua-nos em cima e carrega pedaços de tempo que nos faltam, há tempos que nos faltam, há tempos que me faltam, tempos que me hão de faltar e que por muito que os disfarce com contentamentos de vária ordem sempre aqui estarão espalhando-me grãos de saudade por todo o corpo e lembrando-me das minhas desatenções passadas. Penso nisso com pena, ao menos que me previnam de desatenções futuras, nunca é tarde para se ser melhor do que se foi ontem.

Mas o que importa? Continua a chover nos dias em que quero que chova, tenho um guarda-chuva larguíssimo, uma coisa desproporcional, quase maior que um sombreiro de praia. Derivado a essa grandeza nenhuma gota me toca, não pode haver felicidade maior, sou tão feliz. Tenho uns sapatos oferecidos por uma tia afastada providos de uma artimanha qualquer que nunca se me entra água pelos pés, tenho quatro ou cinco amigos e uns senhores idosos que jogam às cartas numa mesinha já meio podre aqui no meu bairro. Entusiasmam-se com o jogo, riem-se como se fossem jovens. Entusiasmo-me com eles, rio-me como se fosse velho.

Que mais pode alguém querer?)”   (Pág. 27)

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Fotografia de Gil Cardoso tirada durante a apresentação do livro na Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho, a 16 de Fevereiro de 2016.

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