«A Árvore das Palavras» de Teolinda Gersão :: Opinião

Trocando as rendas e os brocados pela capulana, somos levados pela mão de Gita a ver Lourenço Marques, Moçambique, como a África que nos engole e enreda e é capaz de nos viciar naquela terra quente, capaz de despertar em nós sensações que não se manifestariam em qualquer outro lugar.
A primeira parte deste relato é meio quizumba, não é traçado em linha paralelas ou perpendiculares, pois tal como a cidade, que se urbaniza, mas não se deixa domesticar, também as memórias desta menina são palpitantes e remendadas como as experiências que nos conta. O vento nas árvores, o mato que quase nos engole e nos faz perder no sonho e na imensidão de uma Natureza como não há igual. No entanto, apesar do registo quase onírico de muitos trechos do seu relato, ela traz até ao leitor personagens muito vívidas, mas também muito donas da sua própria história, mantendo sempre um tom misterioso em tudo o quanto é revelado, seja de Lóia, de Amélia ou de Laureano.

“Um fio une os pedaços, invisível mas tão forte que a transforma numa coisa quase viva.”

É em busca desse fio condutor que o leitor avança e se integra nessa inquietação tecida pelas palavras de Gita, deixando-se enfeitiçar…

“Frases muito livres, por vezes quase obsessivas, que pareciam terminar mas voltavam, iguais a si próprias ou escondidas em variações como atrás de máscaras.”

Obsessivamente continuamos e vamos assistindo à transformação daquela que pensamos ter uma máscara e vamos conhecer Amélia, “aquela que tem muito milando na vida dela.”
Amélia vive a vida com mistério, como se arrumasse tudo em gavetinhas, fazendo um secretismo silencioso de cada um dos seus pensamentos. Tem requintes de malvadez em certas memórias que recorda com azedume e mágoa, mas a sua narrativa é também ela entrecortada por gestos que retrai e que a aprisionam, mas que também nos permitem conhecer-lhe outro lado, no entanto, nada deixa adivinhar o rumo da sua vida.

Numa terceira parte, desta belíssima árvore das palavras, voltamos a encontrar Gita, já mais crescida e mais consciente e somos novamente levados pela torrente de ideias e episódios que foram pautando a sua vida. Talvez nessa fase voltemos a localizar este romance na época em que se insere, especialmente quando ela refere a guerra que está a rebentar em Moçambique e volta a falar de um Portugal desconhecido, uma terra longínqua e fria, de onde não sabe nada nem que tipo de esperança a irá receber e há aqui uma reviravolta em toda a história.
Deixou-me a pensar a forma como as vidas se tocam, quase como um ciclo vicioso que apanha e enreda as diferentes gerações aqui presentes.

Uma leitura fabulosa!

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