“Todos os dias são bons para roubar” de Teju Cole :: Opinião

Regressar à escrita de Teju Cole era imperativo. Depois de uma estreia fabulosa com «Cidade Aberta» ficou uma enorme vontade de voltar e de conhecer um pouco mais da sua prosa e das suas influências e neste, «Todos os dias são bons para roubar» encontramos exactamente isso, a capacidade de Cole para relatar a realidade com o dom de um contador de histórias.
“Uma música suave desperta-me na manhã do dia seguinte: o chamamento do muezim para as orações ecoa através da floresta do vale que separa a propriedade do minarete. Levanto-me e deambulo pela casa (…) O desfiladeiro já não tem agora o mesmo aspecto imaculado (…) A floresta perdeu a batalha. Visto de um certo ângulo, o desfiladeiro tem ainda alguma coisa de primitivo, condiz com uma certa visão que se tem de África.”
Num relato carregado de memórias, chegamos a uma ficção que espelha a realidade nigeriana aquando da volta do narrador a Lagos, capital da Nigéria, após mais de uma década de ausência.
Apesar das semelhanças, já que o autor nasceu nos E.U.A. e cresceu na Nigéria, também o narrador, cujo o nome não sabemos, vem de Nova Orleães até Lagos para visitar a família. No entanto, a desigualdade com que se depara é alarmante e chega até a ser desesperante tanto para quem sempre lá viveu como para quem regressa.
Confundido desde cedo com um oyibo, um estrangeiro, o nosso narrador divaga e recorda as diferenças com que os anos carregaram a Nigéria e sem esquecer a atitude com que deve caminhar nas ruas para evitar determinadas abordagens prejudiciais. Ainda assim, relata tudo de forma quase cinematográfica, fazendo um roteiro para o qual as fotografias são um excelente ponto de partida, espicaçando a nossa curiosidade.
“Tudo nesta cidade que me é, ao mesmo tempo, estranha e familiar, está pejado de histórias, o que me faz pensar na vida como uma sucessão de histórias. (…) É toda essa textura literária que existe em vidas cheias de narrativas imprevisíveis que me agrada.”
Talvez fosse em busca dessa textura literária e também da imprevisibilidade própria da Nigéria que o narrador enveredou por este retorno. Com o ponto de partida em Nova Orleães, em mais um dia bom para roubar, a corrupção é uma constante e viaja com ele. Estabelecendo um paralelismo entre a sociedade evoluída e recheada de oportunidades com aquela em que tudo tem um preço e vários intermediários a quem pagar.
Numa análise mais profunda ao que vê, analisa o Governo, a falta de regras definidas, a corrupção, a educação e a dificuldade em atingi-la nas devidas condições, tal como a música, os livros… a cultura em geral… todas essas dinâmicas da sociedade nigeriana são reveladas ao leitor como se de pequenas histórias se tratassem e, sem esforço nenhum, se entrelaçassem e fizessem o leitor viajar nesta terra tokunbo… “para além do mares”, num local e com um povo cheio de contradições e tensões acumuladas.
“É uma coisa que não se pode dizer em voz alta, mas há por aqui muita violência reprimida. (…) E é por isso também que é difícil ver o que está aqui tão presente à nossa volta (…)” As palavras são de Tomas Tranströmer, mas o narrador diz-nos que podiam ter sido escritas a pensar na Nigéria, quando avalia, por exemplo, a falta de arte em geral e a ausência de investimento em autores nigerianos ou em como um livro ou um cd estão acima das posses do cidadão comum.
“É errado ser infeliz. E também nunca vale a pena aprofundar pormenores, porque a ideia geral é mais do que suficiente. São estas e outras palavras que ficam deste último livro de Teju Cole, assentes sempre em contradições, cuja a análise não sabemos se deve ser feita.
Entre memórias e relatos, visitas familiares e pequenos incidentes, existe reconhecimento e gratidão e, aqui e ali, réstias de esperança de quem continua a criar e a acreditar, como a editora que apoiou Fatai Rolling Star, dos quais deixo as sonoridades com que aumentam a World Music.
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