O Luto de Elias Gro – João Tordo

OlutodeEliasGroO Luto de Elias Gro é o terceiro livro que leio do João Tordo, contudo é o primeiro que me consegue verdadeiramente maravilhar. Não me vou alongar. Não vale a pena, pois não será suficiente. Das frases perfeitas, às palavras escolhidas com engenho, passando pela habilidade das descrições completas e muito belas, que me falaram repletas de emoção, e que eu fui recebendo com prazer e espanto, na calma de cada página lida (e por vezes relida), assimilando o estranho sentido da dor de um homem que conta tudo menos o seu nome.

Passagens sublimes sobre a solidão, sobre a necessidade de estar só, no silêncio, para ouvir o que tem de ser ouvido, no mais profundo de si.

Eu comecei este livro três vezes. Por ter um início tão belo, eu quis repetir o entusiasmo da descoberta, senti que seria muito especial e guardei-o o tempo que pude. Pegava-lhe de vez em quando e sorria com o sofrimento da procrastinação, com o adiamento, com o desejo, com a certeza (que tinha sem saber porquê) que o leria ininterruptamente pelas páginas que o tempo e a vida me deixassem. E foi assim mesmo que o li, com a entrega que este livro merece.

Termino este texto sentindo-me pequena. Sentindo que não produzi uma opinião válida, que não menciono lugares ou personagens, o como ou o porquê. E eu sou mesmo muito pequena ao pé deste livro. Mas no fim fiquei muito mais completa, porque senti um enriquecimento brutal como leitora depois de virar a última página.

“Mas eu entendo-o. A incómoda presença dos outros nas nossas vidas. Às vezes é uma chatice ter de os aturar. Não vale a pena negar, há dias em que acordamos para estarmos longe das pessoas.” (Pág. 68);

“Se os homens se definissem pelas suas profissões, não precisaríamos de nomes. Seríamos o engenheiro número trezentos e quinze e o padeiro seis milhões e meio. Basta que saibam que, dos vinte e dois aos quarenta anos, construí, na cidade, uma carreira de algum prestígio numa determinada profissão e que, a partir dos quarenta, abandonei a cidade e a carreira e fui viver para uma ilha ao largo de uma península, extensão de um continente que não era o meu.” (Pág. 78);

“Escrever mantém-me sóbrio e ajuda-me a preservar a confiança neste caminho de que vos falei. Um homem é refém dos seus segredos até os pronunciar em voz alta; depois, devolvendo-os a Deus numa oração ou numa litania dos aflitos, eles rapidamente se revelam como aquilo que verdadeiramente são: criaturas invertebradas e informes que se escondem atrás do Medo.” (Pág. 151);

“Prossegui pelo litoral enquanto a luz descobria a bainha do céu. Constatei que, embora no centro do meu peito existisse um buraco imenso, aquela liberdade dava-me prazer. Não tinha lugar aonde ir nem ninguém a quem prestar contas; não tinha casa nem família. A melancolia deixara de me incomodar, éramos velhos amigos e, a partir de certa altura, já nada se consertava. Pedalei durante algumas horas pela ilha. Ora a ritmo de uma marcha, ora esforçado numa ladeira; por vezes encontrava a tranquilidade de um terreno plano e deixava a bicicleta fazer o seu trabalho, aproveitando o embalo. Passei pelo farol, mas não me detive; era um lugar ensombrado, habitado pelos restos de uma civilização proscrita.” (Pág. 230);

Sinopse

“Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais. 
A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar.
O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza – e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor.
O luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.”

Companhia das Letras, 2015

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