Enquanto Lisboa Arde, O Rio de Janeiro Pega Fogo de Hugo Gonçalves

Enquanto Lisboa Arde O Rio de Janeiro Pega Fogo

A história é simples: um homem que falhou em tudo a que se dedicou, perseguido por gente duvidosa por ter cometido actos, não criminosos mas estúpidos, foge para o Brasil, literalmente com uma mão na frente e outra atrás. Mas leva uma encomenda.

O suspense sobre a encomenda termina nas primeiras páginas: leva um livro que delata a história de uma mulher com um ex-PIDE nos anos 70, pós-queda do regime.

Este livro foi encomendado por Filipe, um homem filho de famílias com dinheiro antigo, que lhe pede que encontre Lázaro, o ex-PIDE.

Pelo caminho aparece Margot, uma luso-brasileira do Vidigal e Cascais, que passou da favela para a Linha, e por quem o personagem principal se apaixona perdidamente.

Entre múltiplas peripécias, muita droga, muitas descrições bem concretizadas do Rio e da Serra dos Órgãos, de Lisboa, o livro tem uma escrita que se desenrola naturalmente e que agarra, conseguindo que terminemos o livro sem períodos de tédio. O ritmo impresso é ideal, um bom livro de praia, por exemplo. O final é surpreendente e bem recambolesco.

Gostei do livro, e recomendo-o.

Não gostei do facto de o escritor o ter tentado tornar num livro de época, um livro sobre a crise de 2008 e sobre a emigração portuguesa para o Brasil. O número de vezes que critica Portugal e que elogia o Rio é idêntico. Mas o que mais me aborreceu foi o facto de usar o personagem principal para elogiar o Rio, e todos os outros personagens para criticar Portugal. Achei a crítica cobarde. Caracteriza o ano de 2008 como um ano de fome, de miséria, de desemprego, define a sociedade portuguesa como podre e irrecuperável, e para que não julguem que estou a exagerar, eis um excerto do livro, em nota de rodapé do Autor:

“Havia, entre alguns Europeus, uma atitude de desconfiança com a prosperidade do Brasil e com a avidez do consumo. Talvez estivessem escaldados com o que se passara nos seus países: o endividamento, a loucura despesista, os bancos a emprestarem, a falirem e a serem salvos com o dinheiro dos contribuintes. Depois da ascenção do Brasil – e do consumismo – , talvez temessem que a queda voltasse a ser tremenda. Mas também podia ser inveja. Era foda ver o hemisfério sul a dar as cartas. Era foda ver o crescimento dos partidos nacionalistas na Europa, as manifestações de desempregados, os governos de joelhos para pedirem dinheiro emprestado, todo um falhanço continental que demorou décadas a construir e apenas meses para se mostrar ao mundo.”

Ou este outro trecho:

“Por mais que tivesses viajado, defendendo, como Kay, a mistura de tudo e todos, no Rio de Janeiro, enquanto imigrante ilegal, percebeste que tinhas em ti um portugalidade crónica, séculos de transmissão genética, e séculos maculados pelo nevoeiro da esperança. Percebeste também que tudo aquilo que mais te incomodava em Portugal, sempre procriou dentro de ti e deu à luz nos teus actos: o desleixo, a bonomia, o chico-espertismo, anos a confundir consumo com felicidade.

És o filho da democracia, a criança mimada da família, a geração portuguesa mais europeia de sempre, e mais educada, mais preparada, e agora mais deprimida. És um lisboeta que se enternece quando em vez de castanhas se vendem morangos e cerejas na Praça do Rossio. És judeu, e árabe e magrebino e preto e celta e lusitano e ibérico e transatlântico. O teu avô emigrou, o teu pai também. És parte da torrente do sangue que circula pelo mundo. Ficas ereto em Nova Iorque, quase te mataste em Londres, lembras-te pouco de Amesterdão, pisaste o risco em Madrid, querias parar nos braços do Rio (nos braços de Margot) e ficar por aí. Mas já não dá. És um puto fadista, o vadio que chega tarde. Não tens uma casa há quanto tempo?

És tantas coisas e não consegues ser nada.”

O que mais chateia é que a escrita é boa, mas esta insistência em “cascar em Portugal”era completamente escusada já que não acrescenta nada à história, que seria igualmente boa, sem necessidade de se “estar a bater no ceguinho”. Se queria ser como Eça de Queiroz a criticar Portugal, falhou.

 

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3 pensamentos sobre “Enquanto Lisboa Arde, O Rio de Janeiro Pega Fogo de Hugo Gonçalves

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