Em Teu Ventre – José Luís Peixoto

emteuventreFui a uma das apresentações deste livro antes de o ler. Tive receio de ter ficado a saber demais, ou de partir para a leitura influenciada pelas dicas do autor, perdendo margem de descoberta. Sinceramente, acho que fiquei a ganhar. A apresentação foi muito clara, José Luís Peixoto partilhou algumas das suas intenções na escrita deste livro, assim como alguns detalhes da estrutura que receio que me pudessem escapar. Já tinha o livro. Já tinha (muita) vontade de o ler. As palavras do autor fizeram-me abrir a primeira página.

Partilho alguns momentos desta apresentação. Ao som de Moonspell – The Last of Us (Extinct, 2015). Fotografias de Gil Cardoso.

A escrita de José Luís Peixoto encanta-me sempre, se calhar encanta-me cada vez mais. Revejo-me numa espécie de honestidade nas suas palavras, como se não tivesse medo de se dar, de se mostrar, sempre um pouco mais em cada livro.

Não que fiquemos a saber se ele acredita ou não nas Aparições de Fátima depois de ler Em Teu Ventre. Mas este livro também não é sobre as Aparições. É sobre as Mães, segundo o próprio. Eu não sei se é só sobre as Mães. Há uma frase que não me largou durante toda a leitura do livro. Passava as páginas e pensava recorrentemente “é só uma criança”. Refiro-me a Lúcia, a personagem real que vive nestas páginas como uma possibilidade do que pode ter sido. Convenceu-me de que pode mesmo ter sido assim, e tenho para mim que isso já diz muito a favor do livro.

A narrativa é perfeita. Não me vou alongar neste ponto pois vou acabar a tecer os mesmos elogios de sempre. Perfeita mas não linear. Na verdade é interrompida várias vezes. Há uma espécie de voz de consciência que se vai atravessando no caminho, uma voz zangada, por vezes desiludida. Eu reconheci aquelas frases de mãe desiludida que nos ficam na cabeça anos a fio, e depois, vindas do nada, atravessam-se na nossa mente e recordam-nos os erros e as dores de cabeça que lhes demos. É uma coisa recorrente e real porque não controlamos este tipo de pensamentos, e a forma como surge no texto, no momento certo, é um tiro certeiro que nos faz sentir coisas esquecidas, parar para pensar e, muitas vezes, sair do livro e recordar. Uma ideia que funciona muito bem.

Ao mesmo tempo, e talvez para equilibrar esta voz da mãe “malvada”, há uma voz divina que surge em frases perfeitas. É a primeira voz deste livro. É, possivelmente, a voz que as Mães querem ser. Mas depois há aquele pormenor de as Mães serem humanas, e é difícil conciliar a perfeição com essa característica plena de falhas.

Talvez me esteja a deter demasiado tempo na forma, deixando de lado o conteúdo, mas o conteúdo é uma história conhecida enriquecida com palavras que a fazem uma versão credível. A forma foi o que mais me fez pensar. O que mais me agradou. O que mais me encantou. É a forma que permite que o leitor participe neste livro. Se identifique. Pense.

Adorei! Recomendo muito!

“(Todas as pessoas têm direito a descanso, menos as mães. Para cada tarefa, profissão ou encargo há direito a uma folga, menos para as mães. Se alguma mãe demonstrar a mínima fadiga de ser mãe, haverá logo uma besta, ignorante de limpar baba e de parir, que se oferecerá para a pôr em causa. Não é mãe, não sabe ser mãe, não foi feita para ser mãe, dirá. Mas, se todas as pessoas têm direito a descanso, será que as mães não são pessoas? A culpa é nossa. Sim, a culpa é das mães. Deixámos que fossem os filhos a definir-nos.)” Pág. 27;

“(Talvez porque escreves livros, pareces convencido de que toda a gente precisa de saber ler. Não creias, há ignorâncias muito piores. Eu sei que é triste sermos obrigados a ficar do lado de fora, sem autorização, como se quisessem fazer-nos ver que não temos a valia dos outros. Conheço bem essa ofensa, acredita. Mas repara em tantas vidas que prosperaram sem uma letra, repara também em quantos sabem ler e nunca chegam a passar de imbecis.)” Pág. 83;

Sinopse

“«Mãe, atravessas a vida e a morte como a verdade atravessa o tempo, como os nomes atravessam aquilo que nomeiam.» Numa perspetiva inteiramente nova, Em Teu Ventre apresenta o retrato de um dos episódios mais marcantes do século XX português: as aparições de Nossa Senhora a três crianças, entre maio e outubro de 1917. Através de uma narrativa que cruza a rigorosa dimensão histórica com a riqueza de personagens surpreendentes, esta é também uma reflexão acerca de Portugal e de alguns dos seus traços mais subtis e profundos. A partir das mães presentes nesta história, a questão da maternidade é apresentada em múltiplas dimensões, nomeadamente na constatação da importância única que estas ocupam na vida dos filhos. O sereno prodígio destas páginas, atravessado por inúmeros instantes de assombro e de milagre, confere a Em Teu Ventre um lugar que permanecerá na memória dos leitores por muito tempo.”

Quetzal, 2015

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