” O Coro dos Defuntos” de António Tavares

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Nesta Roda dos Livros não faltam referências ao prazer da leitura e este artigo será muito pouco original pois começará exactamente assim: foi um enorme prazer ler este “O Coro dos Defuntos”. Lê-lo assemelhou-se a comer uma tangerina sumarenta (adoro citrinos), com a proporção ideal de ácido e doce, sendo cada página um gomo de deleite e amiúde um sorriso. Uma história muito bem contada sobre um certo Portugal, numa época de mudanças fulcrais cujos ecos atingem uma aldeia remota, até então quase parada no tempo, e um verdadeiro festim de palavras, eis, o Prémio Leya deste ano, até agora (e dos que li) o meu favorito. Gostei muito de acompanhar aquelas vidas, a um tempo limitadas pelo isolamento e por superstições antigas mas também de algum modo sábias na sua ligação aos costumes ancestrais, à Terra e aos ritmos da agricultura. A avó da narradora, mulher sábia, conhecedora das artes de cura pelas plantas e pelas rezas, parteira e cuidadora dos defuntos e o Manuel Rato, antigo seminarista e filósofo impenitente são personagens inesquecíveis. Toda a narrativa se desenrola daquela forma mágica capaz de transportar o leitor para um tempo e um lugar, mergulhando quem lê nas brumas e na luz de vidas que parecem muito longínquas e no entanto, são, como todas, reflexos daquilo que somos, da essência que nos torna humanos e que permanece através das eras sob as camadas de avanços técnicos.
Ao longo deste livro estupendo apercebi-me de algo muitas vezes ignorado, talvez por ser demasiado familiar: a formidável riqueza da Língua Portuguesa. Não, não me custaram nadinha as consultas constantes ao glossário do final do livro, aprendi imensas palavras novas, suculentas ou truculentas, mas sempre deliciosas como por exemplo: aranzel, balabrega, esgarabulhão, flostria, gatimanhos, lambisco, regalório, penetrais e suspicácia. São palavras redondas, de encher a boca e acender sorrisos e, caso não as entendam, façam uma coisa: leiam “O Coro dos Defuntos” para as conhecer e, creio, não se arrependerão.

Face à impossibilidade de transcrever todos os excertos que me tocaram especialmente, deixo aqui o começo de tudo, os primeiros paragráfos que me cativaram de imediato:

Diz ela que o mundo nem sempre foi assim.
Noutros tempos, a avó corria à beira do rio com um pau de vime na mão a espantar os espíritos dos mortos e batia nas pedras e na água como se sacudisse os males da Terra. Tecia nos lábios uma ladainha, uma canção que se misturava na corrente e na espuma dos rápidos.

Diz ela, que o mundo era diferente: as árvores frutavam-se de forma espontânea, como se tivessem vida própria, e ninguém as regava ou podava. Os muros enchiam-se de musgos, campainhas e pipilros, brotavam cogumelos de todas as espécies em todos os cantos e era possível ler nas entranhas dos troncos o destino dos viventes.

Cada um sabia quem era os outros e cada qual conhecia todos e, mais do que a eles, os pais e avós, às vezes os bisas e tudo assim, mesmo na linha colateral, ou seja, primos e tios e por diante. Ainda és prima do Caneco, diziam-lhe; e era, numa distância que se perdera em várias gerações de nascimentos e mortes sucessivas, mas ao vê-la passar sentiam essa ternura que habitava algures num canto da sua genealogia.”

Sinopse:

Um belíssimo retrato do mundo rural português entre 1968 e 1974. Vivem-se tempos de grandes avanços e convulsões: os estudantes manifestam-se nas ruas de Paris e, em Memphis, é assassinado o negro que tinha um sonho; transplanta-se um coração humano e o homem pisa a Lua; somam-se as baixas americanas no Vietname e a inseminação artificial dá os primeiros passos. Porém, na pequena aldeia onde decorre a acção deste romance, os habitantes, profundamente ligados à natureza, preocupam-se sobretudo com a falta de chuva e as colheitas, a praga do míldio e a vindima; e na taberna – espécie de divã freudiano do lugar – é disso que falam, até porque os jornais que ali chegam são apenas os que embrulham as bogas do Júlio Peixeiro. E, mesmo assim, passam-se por ali coisas muito estranhas: uma velha prostituta é estrangulada, o suposto assassino some-se dentro de um penedo, a rapariga casta que colecciona santinhos sofre uma inesperada metamorfose, e a parteira, que também é bruxa, sonha com o ditador a cair da cadeira e vê crescer-lhe, qual hematoma, um enorme cravo vermelho dentro da cabeça. Quando aparece o primeiro televisor, as gentes assistem a transformações que nem sempre conseguem interpretar…

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2 pensamentos sobre “” O Coro dos Defuntos” de António Tavares

  1. Gostei muito da tua opinião, Renata. Um bom espicaçar da curiosidade sem desvendar demais!
    Também estou a gostar muito!
    Como tu, já me ri e já andei à “pesca” do significado de algumas palavras. Estou a saborear a história!
    Realmente excelente!
    Mas ao contrário de ti tenho gostado dos Prémios Leya que tenho lido. Gostei bastante de “O teu rosto será o último” (2011), de João Ricardo Pedro e de “Debaixo de Algum Céu” (2012), de Nuno Camarneiro, na minha estante estão, ainda por ler, “O Rastro do Jaguar” (2008), de Murilo Carvalho e “Uma Outra Voz” (2013), de Gabriela Ruivo Trindade.
    Todos os que tenho lido nos apresentam uma visão deste nosso Portugal que tanto me tem agradado.
    Não sou muito dada a seguir e ler Prémios só porque sim, mas confesso que as escolhas deste júri me têm surpreendido bastante por nos darem a conhecer tanto das nossas raízes e estados de alma.
    “O Coro dos Defuntos” é, também para mim, o melhor dos Leya que li até agora e, de facto, imperdível!

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