Afonso Cruz – Para onde vão os guarda-chuvas‏ *

* acho que tem spoilers

 

O Afonso Cruz partiu-me o coração em 596 páginas, em cada uma das frases, em cada uma das palavras, em cada uma das letras que compõem esta história. Não sei como deixei acontecer.

Parecia que sabia tudo deste livro, já rodou no meu clube de leitura, mas não houve spoilers, e quase toda a gente da Roda escreveu a sua opinião, que eu ainda não li e assim consegui ser surpreendida por tudo. Pelos títulos dos capítulos que são as suas primeiras frases (em todos menos no capítulo 77, porquê?). Pelas páginas iniciais coloridas, com desenhos de uma história de Natal, que dá o tom ao livro mas só o percebo quando o meu coração já está esfrangalhado. Pelas páginas pretas que são Azrael, a morte. Pelas imagens em páginas pretas. Pela quantidade de religião e perguntas, a sério, para onde vão os guarda-chuvas?. Pelo facto de ser uma história passada no Oriente, não sei porquê esperava uma aldeia perdida em Portugal. Há muçulmanos, um hindu, um cristão … quase dava para uma anedota mas nada neste livro nos faz rir, há medo, violência e tristeza.

É realmente um tapete com centenas de fios entrelaçados como a vida das pessoas umas nas outras. Bibi “que não tapava os cabelos e andava com eles soltos como pássaros”. Badini o primo poeta que era mudo, quando tinha 7 anos “o pai fê-lo engolir as palavras todas”. Aminah de dentes desalinhados que queria casar com um homem de olhos azuis como o Paul Newman. A Morte, que tem vários nomes, gosta de azeitonas, xadrez e é uma sentimentalóide. Fazal Elahi dono da fábrica de tapetes que andava sempre a olhar para o chão para passar despercebido, “gostava de ser como as paredes”. Salim filho herdeiro de Fazal Elahi, que gostava de correr de braços abertos a fingir ser um avião, é morto por soldados americanos. Isa o miúdo americano adoptado por Fazal Elahi. Ilia Vassilyevith Krupin, general russo convertido ao Islão, muito mais assustador que a morte, violento, queria fabricar mesquitas voadoras. Dilawar de olhos azuis, fraco, filho do general russo. O padre a quem Fazal Elahi pede para ensinar Isa a ler porque o miúdo também é cristão. Nachiketa Mudaliar, hindu apaixonado por Aminah, muçulmana. Gunnar Helveg o estrangeiro que faz pesquisas sobre os dervixes ladrões. Os dervixes ladrões que dizem “nada neste mundo se faz sem roubar, para conseguir alguma coisa temos de privar algo ou alguém dessa mesma coisa”.

O primo Badini que é mudo mas diz as coisas mais verdadeiras e acertadas e o indiano persistente são as minhas personagens preferidas e a parte quando Aminah leva Isa ao mercado, não é a mais violenta mas é, para mim, a mais desumana.

Senti nesta história que nada é dito, feito ao acaso, tudo caminha para o que achamos ser o fim esperado, tanto ouvimos falar nas escadas íngremes que finalmente também as escadas fazem parte da história e depois, no final, esse não é o fim.

 

É brutal, maravilhosamente bem escrito e muito mais do que eu consigo aqui escrevinhar.

 

 

“O universo é equilibrado, tem é um equilíbrio muito delicado, extravagante, pois a parte má é muito maior do que a boa”

“O destino tem muitas caras. O pescador tinha uma filha e vendeu-a. Era assim que começava o filme a que Aminah fora assistir”

“34. Disse Ali: Não é a falta de pessoas à nossa volta que faz a solidão. São as pessoas erradas ”

“É muito simples, como são todas as soluções, no worry, no hurry, chicken curry. Quando são complicadas, são complicações, não são soluções.”

Nachiketa fez as compras todas, passou pelo templo de Girijashankar, mas não se atreveu a oferecer mais do que água e flores do campo. Merda para os deuses, o macaco do Hanuman e o probóscide do Ganesh e mais o maricas do Krishna, Pediu apenas para ser feliz, nada mais, que um homem quando quer chegar ao seu destino, pede isso mesmo, não pede rodas para a carroça.”

“- No outro dia perguntou-me se o Deus dos muçulmanos era o mesmo Deus dos cristãos, e eu disse que sim, claro, são o mesmo, Isa só há um Deus, se fossem diferentes era porque havia dois e isso é uma blasfémia. E ele disse-me, mas, baba, se o Deus dos muçulmanos e o Deus dos cristãos é o mesmo, porque é que os muçulmanos e os cristãos são inimigos? Peço perdão, disse eu, não são inimigo. Não são?, perguntou ele. É complicado, disse eu, e mandei-o subir para o quarto, que já eram horas de dormir.”

“É preciso mudar o destino e não deixar que a tragédia volte a vencer, é preciso que fiques e que este ano não partas em peregrinação, peço perdão, precisamos de ti, sim, precisamos.

                                                               -É difícil mexer na vida

                                                               esperando mudála para melhor,

                                                               uma mudança aqui

                                                               faz uma tragédia do outro lado,

                                                               é como quem puxa um lençol

                                                               para tapar o peito,

                                                               destapando os pés,

                                                               é como o homem que foge do lobo

                                                               para encontrar um urso.”

 

65d. Não estamos a fazer a pergunta certa se a nossa pergunta tiver reposta”

 

 

 

 

 

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2 pensamentos sobre “Afonso Cruz – Para onde vão os guarda-chuvas‏ *

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