“A amiga genial” de Elena Ferrante

 

a amiga genial

 

“(…) a literatura só persiste porque reescreve, revolucionariamente, não só o mundo em que vivemos como tudo o que antes já foi escrito. Um mundo feito de luz, de sombras e de penumbra(…)”

Maria Manuel Viana in “Teoria dos Limites”

 

Estamos nos anos cinquenta do século XX. Duas raparigas num bairro pobre de Nápoles estabelecem uma curiosa relação de amizade temperada por uma competição subterrânea em torno de aprendizagens e afectos. O quotidiano do bairro e dos seus habitantes, nada de extraordinário portanto. Então, o que torna este livro de Elena Ferrante tão especial para que seja alvo de tantos elogios e  tantas críticas excelentes? A resposta encontra-se na página 179 deste romance: “Lila sabia falar através da escrita; (…) não deixava nenhum sinal de falta de naturalidade, não se sentia o artifício da palavra escrita. Eu lia, e ao mesmo tempo via-a e ouvi-a. A sua voz era como um fluxo que me arrebatava e me fascinava (…)”. Assim escreve esta autora que insiste em manter o anonimato nestes tempos de culto da mediatização e de endeusamento das estratégias de vendas. Assim me senti enquanto lia, cativa das suas palavras, sempre à espera de saber o que iria suceder a seguir até ao final que me deixou suspensa, com a curiosidade a fervilhar e uma enorme vontade de começar imediatamente o 2º volume desta tetralogia. A escrita é depurada, fluida e aparentemente simples mas capaz de transmitir a quem lê emoções profundas. Não há neste livro uma só linha supérflua e a narrativa decorre palpitante e intensa. Não é necessário qualquer esforço para manter a atenção na leitura que nos transporta para aquela época e para aquele lugar de uma forma implacável mas também irresistível. Pelo contrário, o difícil é pousar o livro quando há que retornar às mil e uma tarefas do dia-a-dia. Para além disso, neste “A amiga genial” fala-se muito do acesso à educação, sobretudo para as raparigas, num tempo em que muitas crianças viam a infância e o seu percurso educativo interrompidos por uma entrada precoce no mundo trabalho, fruto da incapacidade económica das suas famílias para as manter na escola. Na Europa do século XXI, estes parecem já remotos escolhos do passado (sê-lo-ão verdadeiramente?), contudo, basta erguer o olhar para outras paragens para ver quão prementes se mantêm estas questões e quanto há ainda a fazer no que se refere ao acesso à educação no nosso mundo. Esta será a grande diferença dos destinos de Lenù e Lila; enquanto à primeira, por ser aluna aplicada, é permitido continuar os estudos, a segunda vê-se obrigada deixar a escola para ajudar a família, apesar da sua inteligência brilhante.
Terminado este volume uma certeza ficou: “História do Novo Nome”, o volume que se segue será, com certeza, uma das minhas próximas leituras.
Excertos:

“Não tenho saudades da nossa infância, foi cheia de violência. Acontecia-nos de tudo, em casa e fora dela, todos os dias, mas não me lembro de ter alguma vez pensado que a vida que nos calhara fosse particularmente desagradável. A vida era assim e mais nada, crescíamos com a obrigação de torná-la difícil aos outros, antes que os outros a tornassem difícil a nós. É claro que teria gostado das maneiras delicadas que a professora e o padre pregavam, mas sentia que esses modos não eram adequados para o nosso bairro, mesmo para as raparigas. As mulheres lutavam mais umas com as outras do que os homens, agarravam-se pelos cabelos, magoavam-se. Fazer mal era uma doença. Em pequena imaginava animais pequeninos, quase invisíveis, que apareciam de noite no bairro, saíam dos charcos, das carruagens de comboio abandonadas do lado de lá do aterro, das ervas malcheirosas a que chamavam fedorentas, das rãs, das salamandras, das moscas, das pedras, do pó, e metiam-se na água e na comida e no ar, fazendo as nossas mães e avós ficarem raivosas como cadelas sedentas.”

“Lila fazia de cabeça contas complicadas, nos ditados não dava um erro, falava sempre em dialecto como todos nós, mas quando era preciso puxar de um italiano como mandam os livros, usando até palavras como “avezado”, “luxuriante”, “com todo o gosto”. De modo, que quando a professora a mandava para o terreno para dizer os modos e os tempos dos verbos, ou resolver problemas de aritmética, extinguia-se qualquer hipótese de lhe mostrarem boa cara, os ânimos exaltavam-se. Lila era demais para qualquer pessoa. (…) a sua rapidez mental fazia lembrar um sibilo, um relâmpago, uma picada letal. E nada no seu aspecto poderia servir para suavizar essa impressão. Andava desgrenhada, suja, nos joelhos e nos cotovelos tinha sempre crostas de feridas que não tinham tempo de sarar. Os olhos grandes e vivos sabiam transformar-se em duas fendas, no fundo das quais, antes de qualquer resposta acertada, havia uma expressão que não só parecia pouco infantil, como talvez não humana. Todos os seus movimentos avisavam que era inútil fazer-lhe mal, porque fosse como fosse, ela arranjaria maneira de nos fazer ainda mais mal.
O ódio, portanto, era tangível, eu sentia-o. Tanto as raparigas como os rapazes a detestavam, mas os rapazes mais abertamente.”

“Começavam a falar de dinheiro e acabavam a litigar por causa de Lila.
“Se me pagares, encarrego-me de a mandar estudar, dizia Rino.
“Estudar? Porquê? Eu estudei?”
“Não.”
“E tu estudaste?”
“Não”
“Então porque é que a tua irmã, que é rapariga, há-de estudar?”
O assunto encerrava-se quase sempre com uma bofetada na cara de Rino, que de uma forma ou de outra, mesmo sem querer, faltara ao respeito ao pai.”

“Disse-me em dialecto: “Tu ainda perdes tempo com essas coisas, Lenù? Nós andamos a voar sobre uma bola de fogo. A parte que arrefeceu flutua sobre a lava. Nessa parte construímos os edifícios, as pontes e as estradas. De tempos a tempos a lava sai do Vesúvio, ou então provoca um terremoto que destrói tudo. Há micróbios por todo o lado, que nos fazem adoecer e morrer. Há guerras. Há por aí uma miséria que nos torna a todos cruéis. A cada segundo pode acontecer qualquer coisa que nos faz sofrer de tal modo, que não há lágrimas que cheguem. E tu, o que fazes? Um curso de Teologia em que te esforças para compreender o que é o Espírito Santo? Esquece isso, quem inventou o mundo foi o Diabo, e não o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Queres ver o colar de pérolas que o Stefano me ofereceu?”

Sinopse:

A Amiga Genial é a história de um encontro entre duas crianças de um bairro popular nos arredores de Nápoles e da sua amizade adolescente.
Elena conhece a sua amiga na primeira classe. Provêm ambas de famílias remediadas. O pai de Elena trabalha como porteiro na câmara municipal, o de Lila Cerullo é sapateiro.
Lila é bravia, sagaz, corajosa nas palavras e nas acções. Tem resposta pronta para tudo e age com uma determinação que a pacata e estudiosa Elena inveja.
Quando a desajeitada Lila se transforma numa adolescente que fascina os rapazes do bairro, Elena continua a procurar nela a sua inspiração.
O percurso de ambas separa-se quando, ao contrário de Lila, Elena continua os estudos liceais e Lila tem de lutar por si e pela sua família no bairro onde vive. Mas a sua amizade prossegue.
A Amiga Genial tem o andamento de uma grande narrativa popular, densa, veloz e desconcertante, ligeira e profunda, mostrando os conflitos familiares e amorosos numa sucessão de episódios que os leitores desejariam que nunca acabasse.

 

 

 

 

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