«Há Sempre Tempo para Mais Nada» de Filipe Homem Fonseca :: Opinião

O mundo anda faminto de qualquer coisa que não sabe o que é. Mãos estendidas, estômagos vazios, gente que morre à espera. Há Sempre Tempo Para Mais Nada é uma história de perda colectiva e individual (…) A extinção pessoal de um viúvo…

Assim se apresenta a sinopse deste «Há sempre tempo para mais nada», onde ficamos a mãos com um viúvo fazendo uma extraordinária declaração de amor à mulher que perdeu.

Antes de dispersar pelas frases seguintes, tal como o autor faz nas páginas deste seu segundo romance, precisei de ler mais sobre o autor e gostei deste pequeno resumo do seu percurso e de como podemos contar com futuros romances, já que Homem Fonseca detesta «deixar apodrecer ideias», como se pode ler no artigo «A loucura engana-se com a dispersão» no Sol.

*

“Sobreviva o indivíduo, a espécie logo se vê, evoluir é encontrar a solidão da sobrevivência.”

É essa solidão que conseguimos aqui acompanhar e sentir o luto, o vazio, o desespero e o amor que ainda existe no peito, na cabeça e na tal mão estendida com que este viúvo caminha entre Lisboa e outro canto do mundo.

É de mão estendida que o viúvo e o leitor chegam ao fim, sem dó nem piedade, antes pelo contrário. Se inicialmente parece estarmos perante uma louca e bela declaração de amor, dona ainda de bastante lucidez, todas essas esperanças morrem ao longo da narrativa e não há lugar à redenção. A perda é continua e não há extinção para a dor que o embala e que o afunda. A morte da mulher é inexplicável e tem o poder de lhe usurpar todas os pensamentos.

“Até então, só me comovia a morte. Não a tua, a tua existiu para além de toda a razão e sentimento, sei que nesse dia o meu juízo viu quebrado o selo. A única morte que me comovia era a dos livros, os mortos daquelas páginas, sepultados para sempre entre a mesma capa e contracapa que lhes encerra a vida toda, do primeiro choro ao último suspiro (…)”

A escrita e o estilo narrativo do autor são viciantes, o encadeamento das ideias, mesmo que aparentemente dispersas, mistura a perda individual com a perda colectiva, numa análise muito lúcida do que o envolve, abordando a actualidade, mas sem que para isso o texto se torne banal, antes pelo contrário, é o contexto político e social que dão a perceber ao leitor que o viúvo não está totalmente perdido, no entanto não existe espaço para ilusões ou paternalismos. O desassossego é evidente e a preocupação sente-se com cada critica social e respectivo tom cáustico que a revela, no entanto, tem todo o lado belo e terno de palavras carregadas de amor e saudade por alguém que partiu antes do tempo… não consegui desprender-me da ideia de este livro ser uma declaração de amor, uma carta de despedida… as palavras que não foram ditas por imposição do tempo.

“(…)A perda é que muda tudo. Quando se perde tudo há outra coisa que nasce para ocupar o vazio.”

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