«Arranha-céus» de J. G. Ballard :: Opinião

Assim que terminei esta leitura, escrevi:
Já o terminei. É estranho, meio alucinado ou até alucinógeno (ou alucinogénico!?), passamos o tempo a perguntar ou a pedir, a justificação, a fonte do problema… drogas, álcool, sonho (pesadelo?) ou simplesmente as pessoas? Creio que é um enredo recheado de pessoas perturbadas, alteradas, danificadas, será? Cheguei ao fim com muitas questões, mas uma maior que todas, que não revelarei para não quebrar qualquer surpresa para com a leitura deste «Arranha-Céus». Espero que ao ser passado para o cinema seja bem conseguido e com o elenco certo.
 
*
Cheguei a Ballard através de Crash, ou melhor, através do filme que julgava ter sido a adaptação de um dos seus livros, mas já enquanto lia este «Arranha-céus» apercebi-me que o Crash que tinha visto não era o Crash de Ballard adaptado por Cronenberg. Confusões à parte, ganhei mais um filme para a lista dos a “ver futuramente”, bem como será a adaptação cinematográfica deste «Arranha-céus».
O enredo distópico, típico do universo ballardiano (dizem os entendidos!), coloca o leitor num ambiente claustrofóbico de um condomínio fechado. Fechado, segmentado e eu diria espartilhado entre a divisão de classes e os hábitos das mesmas. Nos mil apartamentos vivem cerca de duas mil pessoas, dividas entre pisos, hábitos, festas e crises típicas de bestas pouco humanizadas. A colisão entre pisos faz-se à margem das regras mais básicas de convivência ou do bom senso geral e, é claro, os eventos perdem o equilíbrio, já frágil, e desviam-se dos padrões aceitáveis e rapidamente entram no patamar da selvajaria.

Os predadores andam à solta, mas ninguém sabe ao certo qual será a próxima vítima e a própria caçada em si é pouco lógica e ninguém se sente a salvo. No entanto, há sempre uma pergunta que coloquei ao longo da leitura: apesar de auto suficiente, as pessoas saiam para trabalhar, porque não aproveitam para fugir? Porque não denunciar a situação? Claro que não, perder-se-ia a demência que funcionava como elo.
Estranha forma de vida a destes espécimes abastados que preferem correr o risco constante, ao ponto de se barricarem dentro das suas próprias casas, do que denunciar e expor os podres desta vida a bordo do último grito arquitectónico e tecnológico.

São inúmeras as questões que a trama de Ballard levanta, desde o conflito entre a massa influente ou “heavy breathers” e as camadas mais familiares dos pisos iniciais… como se os outros aos estarem mais perto do céu se sentissem endeusados e na posse das decisões. O sossego e o anonimato fictício constantemente bombardeado pelas festas e pelas orgias que faziam da insónia a doença mais comum. Todo o glamour da sociedade moderna a perder-se nos problemas banais e transversais do quotidiano da população em geral, como o barulho dos vizinhos, o dejectos dos cães ou a sujidade à porta do outro…

Dr. Robert Laing, Antony Royal e o produtor televisivo Wilder unem-se, num roteiro improvável, à viúva Charlotte Melville, a Eleanor Powell ou o casal Steel naquela que será uma autêntica rota de colisão, demonstrando as atitudes frias e calculistas que fazem da cidade vertical uma verdadeira cidade aberta, digna de um cenário apocalíptico, isolado e demente.

Fico com vontade de ver a adaptação e aguardo pela publicação de «Crash» para então ler o “verdadeiro” 😉

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