“A luz é mais antiga que o amor” de Ricardo Menéndez Sálmon

 

 

Luzmark-rothko-art

 

“Beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão”

Alberto Caeiro in “O Guardador de Rebanhos”

“Mas sublinho que o universo é sobretudo composto de nada, que o algo é uma excepção. O nada é a regra. Essa escuridão é um lugar comum; a luz é que é uma raridade.”

Carl Sagan in “As Variedades da Experiência Científica: Uma Visão Pessoal da Procura de Deus”

 

Todos os caminhos podem levar uma leitora a um livro. As circunstâncias exactas da primeira vez em que vi uma menção a “A luz é mais antiga que o amor” são, neste momento, imprecisas, nebulosas e encontram-se já para além do alcance da memória consciente. Talvez tenha sido um título sugerido no decurso de alguma pesquisa feita sobre outra obra, não sei. Mas sei bem o que despoletou a minha curiosidade sobre esta: a referência a Mark Rothko na sinopse. Quis ler este livro porque abordava a vida e a obra de um pintor que me fascina. Sei muito pouco sobre pintura e artes plásticas em geral, menos ainda do que sei sobre livros, o que por si só já não é lá grande coisa. E, tal como aconteceu em relação a este romance, descobri Rothko por mero acaso, há alguns anos, através de um documentário passado na televisão. Os quadros deste pintor espantoso causaram-me uma impressão fortíssima, um misto de prazer estético, de experiência de beleza pura talvez, combinada com uma enorme sensação de serenidade. Ainda não tive o prazer de contemplar nenhuma destas telas ao vivo mas a sensação de quase dissolução nos seus padrões de luz e escuridão continua presente mesmo através de um olhar mediado por um écran ou monitor. Assim cheguei a “A luz é mais antiga que o amor” que passou de “um livro que talvez seja interessante” para “prioridade de leitura urgente” após uma conversa com o Mário Rufino do blog Planeta Livro ( http://oplanetalivro.blogspot.pt.) Muito obrigada, Mário!

E depois de todo este arengar inusitado, chato, pretensioso, chamem-lhe o que quiserem mas senti que tinha de começar por aí, posso dizer algo sobre este pequeno e grandioso livro. Os excertos que podem ler abaixo não passam de um pequeníssimo vislumbre da escrita belíssima do seu autor. Sim, tal como uma tela de Rothko, a forma de escrever de Salmón é espantosamente bela, atinge-nos como uma sucessão de ondas de frases magníficas, umas atrás das outras, do princípio ao fim da sua narrativa. Esta vai decorrendo em volta de quatro personagens: três pintores, dos quais apenas um existiu realmente, e um escritor cuja história apresenta algumas semelhanças com aspectos da vida de Ricardo M. Salmón. Através das vivências destes protagonistas, percorre-se um caminho curioso e inteligentemente construído que percebi como um roteiro por uma multiplicidade de aspectos referentes tanto à influência da Arte nas sociedades quanto às pressões exercidas por estas, desde a Idade Média até aos dias de hoje, sobre aquela no sentido de a manipular e controlar, impedindo a livre expressão dos artistas quando esta é percebida como ameaça aos poderes do mundo.

Assim, de Robertis torna-se num alvo da Inquisição ao tentar pintar “a vida tal como ela é”: inesperada e desconcertante. Rothko questiona o direito de acesso das pessoas à contemplação da arte ao recusar-se a completar uma encomenda destinada a ser exibida num restaurante de luxo e, portanto, a ser usufruída apenas por uma certa elite. O terceiro pintor, o soviético Semiasin, desafia Estaline ao passar para a tela as terríveis experiências vividas durante a II Guerra Mundial, nomeadamente na Batalha de Estalinegrado. Se os outros vêem o seu trabalho cerceado pelos autoridades político-religiosas, Rothko, sofre a reprovação do poder económico ao recusar expôr o seu trabalho longe do livre acesso do público. Todos estes personagens se confrontam com a necessidade de usar a arte para agitar consciências, para catalizar mudanças e estimular o pensamento crítico, ameaçando assim o controlo das pessoas que os poderes instituídos teimam em querer exercer. Todos vivem atormentados por uma certa inquietação e pelos seus “demónios” pessoais. Será por isso que são criadores? Por seu lado, Bocanegra, o escritor, discorre sobre o processo criativo da literatura e sobre o impulso inelutável para escrever como modo de entender a realidade e a natureza do homem. Tal como a pintura, a literatura é vista como uma forma de trazer a luz (o sentido) ao mundo sendo as palavras tão luminosas como as cores numa tela, como “lâmpadas”. Assim é a escrita de Salmón neste livro, luminosa e incomensuravelmente bela. Inesquecível.

Excertos:

“Morrer é, na realidade, o único verbo intransitivo: a morte é uma propriedade inenarrável; nos moribundos não se esconde lição alguma. Não há poesia na despedida do centenário de De Robertis; quando muito uma certa forma de dignidade associada ao silêncio, a dignidade de um homem que abandona a vida saciado de quase tudo.”

“É tentador pensar que a depressão que devorava Rothko se encarna para a eternidade nessas catorze majestades, que combinam o raro prodígio das trevas de que são feitas com a paz que a sua contemplação oferece, como se a precipitação de toda a angústia que cabe no coração de um homem tivesse como resultado a conquista da felicidade por parte de quem a contempla.”

“Os catorze mandamentos de The Houston Chapel são a summa de uma vida consciente e completa: uma floração escura onde estão presentes as sucessivas experiências levadas a cabo pelo artista. Rothko, como um imenso e agressivo corpo celeste, chupa, absorve, abduz a sua obra anterior e transforma-se, depois do seu admirado Turner, no maior manumissor da luz da história da pintura. (…) a cor negra resume a tentativa de apreender a “própria ideia da luz”.

“O acaso não tem um mapa do cosmos integrado num dos seus circuitos, de modo que os seus caminhos convergiram num lugar sem interesse particular. Não era o lugar que interessava, eram eles, aqueles sujeitos audaciosos, nada solenes, no fundo selvagens e indisciplinados, que ambos tinham enterrado sob camadas de rotina, de hábitos, de normalidade. Bastou uma ligeira fricção para que a máscara ficasse reduzida a gesso. De repente a vida estava ali. No riso dela, na sua forma de andar, na sua forma de dizer “amanhã”. De repente a vida, exultante e fatal, a cheirar a enxofre, a vida que não tem atenção às maneiras, nem a progenituras, nem a cerimónias de maturidade, explodiu ali, no meio de parte alguma, no meio de todos os sítios, no centro das suas entranhas. Bocanegra amava, sem dúvida, a sua mulher de então. Mas aquilo era diferente, porque não era uma questão de fidelidade a terceiros. Era uma questão de fidelidade a si próprio, ao seu eu preso sob camadas e camadas de sedimento, ao seu eu fragmentado em milhares de pedaços de cera arrefecida. Matilde só pertencia à sua mais profunda intimidade, àquele lugar onde as pessoas vivem sós, completamente sós, na espera cega da extinção ou, como aconteceu a Bocanegra, do amor resplandecente.”

“Naquele livro, o mais ambicioso que tinha concebido até então, Bocanegra tinha querido contar aos outros, mas também a si próprio, o mistério da criação, em que consiste o dom e a condenação de ser tocado pela mão pesada da arte, a que umbrais se assoma o criador depois de percorrer corredores sem fim, que abismos se abrem de ambos os lados do caminho para esses espíritos indomáveis, um pouco selvagens, que, conquistados pela tristeza, não dedicam as suas vidas só a gerar, a comer, a beber e a defecar, mas que tentam procurar um sentido, um para quê, uma dimensão para além das evidentes a toda essa pletora derramada que é a vida dos homens.”

“A vida é uma lâmpada que os homens cedem uns aos outros: os pais aos filhos, os velhos aos jovens, os sábios aos ignorantes. Bocanegra, de certa forma, é o portador de outra lâmpada: a que ilumina a palavra. Antes dele, ocupantes já de bibliotecas imortais, eternos como astros na noite do céu, abundam os apelidos magníficos: Mann, Camus, Faulkner. Não menos magníficos são os apelidos daqueles que não receberam o distintivo: Kafka, Joyce, Borges. Merecerá ele protagonizar essa gesta, partilhar a vã mas ao mesmo tempo deliciosa fragrância do reconhecimento? Duvida-o, não por falsa modéstia mas porque sempre teve consciência dos seus limites ao ler os outros. Não só os seis nomeados, mas outros que hoje não passam de pó nas prateleiras.”

Sinopse
Numa segunda-feira de 1350, quando a Europa recupera da Peste Negra, o futuro papa Gregório XI visita o pintor toscano Adriano de Robertis para destruir a sua última obra, a blasfema Virgem Barbuda. A 25 de fevereiro de 1970, o pintor norte-americano Mark Rothko corta as veias no seu estúdio de Nova Iorque. A 11 de setembro de 2001, enquanto o mundo penetra na Era do Desconsolo, o pintor russo Vsévolod Semiasin redige uma carta onde revela as razões da sua loucura.
A história destes três mestres, baseada num enigma (o destino insuspeito da Virgem Barbuda de Adriano de Robertis) e gravitando em torno de uma ideia central (o compromisso do pintor com a sua arte face ao poder encarnado pela Igreja, Mercado ou Estado), é o eixo condutor de A Luz é mais Antiga que o Amor, livro de que um romancista chamado Bocanegra nos fala durante três momentos cruciais da sua vida: o nascimento da sua vocação, a morte da mulher e a sua consagração em 2040 como glória da literatura universal.
Depois da aplaudida Trilogia do Mal, Ricardo Menéndez Salmón regressa com um texto audacioso que pode ser lido como um ensaio sobre o génio artístico, como um romance de aprendizagem e até como uma obra de mistério.

 

 

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2 pensamentos sobre ““A luz é mais antiga que o amor” de Ricardo Menéndez Sálmon

  1. As obras de Rothko estão naquele espectro de arte abstracta para a qual olho e penso “… eu nunca vou atingir”, mas depois não consigo bem despregar do quadro e penso: “isto não é para pensar é para sentir”.
    Fiquei curiosa com o livro.

    • : ) Nem mais, é mesmo para sentir; qualquer tentativa de interpretação ou racionalização parece supérflua. Trata-se de uma experiência de imersão na beleza “pura”, um encontro íntimo entre a luz das telas e as nossas emoções, conscientes ou não. Pelo menos é como vejo e sinto essas questões. Queres que te leve o livro?

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