«Esta distante proximidade» de Rebecca Solnit :: Opinião

Quantas bonecas russas temos dentro de nós?
Qual é a nossa história?
Com que histórias construímos a nossa?
Que desabafos a vida nos cala para a determinado momento querermos expô-los a todos?
Com que frutos nos brinda a sabedoria da idade?
Quantos deles apodrecem pelo caminho enquanto tentamos entender quem nos magoa?
Rebecca Solnit não aligeira em nada estas e outras questões e muito menos a densidade das respostas é esse o lado belo deste livro.

“Escrever é dizer a todos e a ninguém aquilo que não é possível dizer a ninguém. Ou melhor, escrever é dizer ao ninguém que pode vir a ser o leitor daquelas coisas que alguém não tem ninguém a quem as dizer.”

Assumidos como biográficos, os testemunhos sob a forma quase romanceada de «Esta Distante Proximidade» mostram com alargada franqueza as marcas que a relação maternal foi deixando nesta mulher. A ferocidade com que as memórias a assaltam contrastam com a realidade que ambas as mulheres vivem. Por lado, uma filha magoada e preterida, por outro uma mãe doente e necessitada.

“Pero yo ya no so yo, ni mi casa es ya mi casa.” Che Guevara

Partindo da premissa que o “valor” das histórias está na maneira de as contar, essa pode ser uma forma muito interessante de olhar à própria composição que Solnit deu aos treze textos que compilou entre designações como: “damascos”, “espelhos”, “gelo”, “voo”, “hálito” ou “ferida”, a todos repete em duas fases, não sem antes descortinar “nó” e “desemaranhado”, criando desta forma todo um jogo de palavras e emoções por episódios da sua e de tantas outras histórias.

A imaginação e a delicadeza com que autora nos aproxima aos delicados e perecíveis frutos, os damascos, demonstra a meu ver, a empatia e por outro lado a distância com que lidamos uns com os outros. Afinal somos todos frutos duma mesma árvore, mas a oposição dos ramos pode muito bem mudar-nos o rumo, no final, o destino é todo o mesmo, o chão. Por intervenção externa podemos não chegar ao chão, ou do chão ter outro destino, transformando aquele fruto ou sendo assimilado e transformando quem o consome…

É toda uma analogia muito caricata e igualmente criativa, gostei muito dessa reflexão, juntamente com toda a divagação, dissertando sobre histórias que a determinado momento se cruzam com a nossa, seja por um livro, uma música, um filme ou um evento.
A resiliência de Sherazade, a luta de Che Guevara, histórias insólitas de canibalismo ou a dedicação por detrás da obra distorcida que foi Frankenstein, são facilitadores de memórias, mas também ferramentas para melhor olhar ao mundo, até mesmo ao nosso pequeno mundo.

«O ressentimento é uma paixão narrativa» são palavras de Charles Griswold num livro intitulado «Perdão» e julgo que este relato de Solnit trata mais de perdão e de superação que propriamente de ressentimento. Este não é um livro sobre a mãe, é um livro sobre a filha, para onde se catapultou com as forças do passado.

«Esta distante proximidade» é também um livro sobre livros, uma história feita de histórias, de lugares e palavras, refúgios contra a solidão, uma solidão que chega a ser doce pelo brilhantismo da narrativa, mesmo que o caminho seja tumultuoso. As histórias são alavancas que ajudam a ultrapassar as portas que se vão abrindo e desvendam dificuldades ou que nos dão coragem para aceitar as portas fechadas e para procurar a agulha que dá sentido à linha que se desvela à nossa passagem.
“Acredito que esta qualidade de partilhar o sofrimento é fundamental para o que significa ser um ser humano.” A frase de Paul Brand utilizada pela autora para dissertar sobre a história de Georgia O’Keeffe, de quem tomou emprestado o título, revelando-nos a geografia dos afectos, escrevendo sobre essa tal “distante proximidade” e igualmente os limites e as fronteiras do eu.
São as tais fronteiras do eu que se estabelecem na relação com o outro que eu julgo estarem na essência de todo este maravilhoso livro.
Já depois de ler o livro, gostei muito de ler o texto de Isabel Lucas, aqui no Público.
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