«Nada de Lágrimas» de Lydie Salvayre :: Opinião

“De qué temes, cobarde criatura? De qué lloras, corazón de mantequillas?
Cervantes
É entre Cervantes e Georges Bernanos que Lydie Salvayre, já amplamente reconhecida, ganha uma distinção ainda maior com o Prémio Goncourt de 2014 atribuído a este seu «Nada de Lágrimas», uma atribuição disputada juntamente com os mais recentes romances de Kamel Daoud e de David Foenkinos. Todos traduzidos em Portugal.
No entanto, foi com lágrimas que a autora recebeu o prémio, talvez por este ser um romance pessoal e biográfico, onde a autora nos dá a conhecer a história de Montse, a sua mãe. O pano de fundo são essencialmente os anos de 1936 e 37, anos marcados pelo começo da Guerra Civil Espanhola e por eventos marcantes no lado mais pessoal da sua família, que como é óbvio a guerra afectou e mudou-lhes o curso.
“A História, neste ponto, abunda em lições deploráveis. O que sei é que Schopenhauer declarou no seu tempo que o nacionalismo e a sífilis eram os dois males do seu século, e que se há muito tínhamos curado o primeiro, o segundo permanecia sem cura. “
A evocação da guerra tem um toque nostálgico ou não fosse o relato ter sido feito numa época em que a mente de Montse, a mãe de Lydie já se transforma e se perde no peso da idade e da doença. Talvez esse seja o detalhe que mais interessa em toda a toda a narrativa para compreendermos uma dinâmica quase que acelerada de toda a reposição de factos. Ao mesmo tempo é também meio confusa e desconexa, com necessidade de recorrer ao livros de História e meter os factos mais verídicos, menos romanceados e isso corta um pouco o decorrer da acção. É verdade que a guerra aconteceu e foi marcante, mas no que nós somos enredados é na vida de Montse, José e Diego e são essas vidas que pedem um romance.
“Estes pobres dom-quixotes, que partem para o combate calçados com pobres alpercatas (…), nada sabem dos usos da guerra, da sua demência cega, da sua repugnante, atroz selvajaria.”
Talvez este seja um livro de despedida e uma homenagem à história da mulher que inspirou uma vida de história e narrativas compostas pela autora. Pelo menos foi isso que me ocorreu. Terá Lydie Salvayre outros romances sobre a guerra civil espanhola? Pelo que procurei, não tem, e talvez por isso este tenha sido tão reconhecido.
George Bernanos e o seu romance «Grandes Cemitérios sob a Lua» têm, supostamente, uma voz própria e distinta da de Montse, mas as vozes não são assim tão diferentes, aliás, arrisco a dizer que o romance funciona todo numa mesma linha, numa mesma voz, a da narradora que relata episódios, conforme lhe são narrados, mas à sua maneira muito própria, na sua linguagem intermitente, colocando umas expressões em castelhano, que pelo menos para mim, abrilhantaram e deram um toque hilariante ao texto.
Sabendo que este é um livro de denuncia das atrocidades do nacionalismo espanhol, eu foquei-me essencialmente em duas personagens, José e Diego, que também eles cometem algumas, mas é a picardia entre os dois homens que só por si dava o mote para um romance de época, com todo o que a luta de classes e a rivalidade entre famílias têm no seu melhor para dar à literatura. A religiosidade e o combate às injustiças da mesma eram igualmente importantes para compor o ramalhete.

Salvayre cria assim um relato de partilha de vidas que se cruzaram com a guerra e a quem a guerra feriu e prejudicou.

“Como se partilhar, já estão a ver, pudesse de alguma maneira diminuir a miséria dos homens.”

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