“Teoria dos Limites” de Maria Manuel Viana

e7afe-teoriadoslimites-mmv“Um livro que não merece ser relido também não mereceria ter sido lido.
(…) Mas antes de o ler, não sabemos se merece ou não ser relido. A vida é muito cruel.”

Jaume Cabré in “Eu confesso”

 

Ultimamente tem sido assim: uma sucessão de leituras esplêndidas no final das quais me vejo remetida a um silêncio, a uma ausência de palavras adequadas para traduzir toda a riqueza desses livros. Olho para o caderninho de notas onde estão registadas as impressões mais ou menos imediatas e desordenadas, geradas por este “Teoria dos Limites” e só me vem à cabeça um pensamento: não percam tempo a ler este artigo e leiam mas é o livro.
Partindo de um funeral, limite derradeiro e inevitável de tudo o que vive, Maria Manuel Viana, constrói uma interessantíssima e muito bem escrita narrativa em redor das noções de limite e de possibilidade. Ao mesmo tempo que nos mostra alguns dos limites, tanto auto-impostos quanto originados pelas respectivas circunstâncias, das vidas de Mariana, Ana Sofia, Ana Lúcia, João Caetano, Velha Senhora, Ana B. E Maria João, desafia-nos, através das palavras do falecido Escritor, a questionar a influência das delimitações em níveis múltiplos. Desde a esfera da vida íntima até à construção da cultura humana nas suas diversas facetas, desenrola-se um trajecto delineado para interrogar o leitor sobre a importância e a natureza dos limites, se fazem ou não sentido e em que situações, se serão positivos, como quando impedem o mal ou contribuem para uma individuação saudável, ou, pelo contrário, se constituem um espartilho, um entrave ao progresso das ideias, das sociedades e do bem-estar das pessoas. Existirão limites para a imaginação, para a criatividade, para a bondade e para a maldade? Se sim, serão constitutivos, estarão gravados no nosso ADN, na nossa fisiologia? Poderemos algum dia suplantar os limites “negativos”, superando-nos finalmente de modo a construir um mundo melhor e mais justo para todos? E quanto às possibilidades e à superação das fronteiras positivas? ( Vejo possibilidade como uma oportunidade para tornar melhor mas, obviamente,  nem todas o serão ).Fará sentido compartimentalizar de modo rígido as várias áreas do conhecimento humano, separando as ciências naturais das sociais, as ciências das artes e da filosofia? Talvez, se pensarmos apenas em aplicações restritas de cada uma delas, mas serão esses limites benéficos para uma compreensão real e global do Universo e de nós próprios? Não sei, tenho dúvidas. Muitas. Nesta realidade e , creio que também, em todas as outras realidades possíveis, se estas existirem tal como defendia Leibniz.

E a literatura, poderá ser uma ponte a unir todas estas manifestações da mente humana? Parece-me que sim, por nos oferecer narrativas capazes de atribuir sentido à existência de uma forma livre, sem peias, misturando tudo o que lhe apetecer, como neste caso, letras com matemática e filosofia, permitindo assim a fruição de vislumbres preciosos da maravilhosa complexidade do Cosmos e do ser humano. Este romance é um deles. A (re)ler.

Excertos:

“o mal, a dramaturgia da vida quotidiana, identidade e diversidade, diferença e fragmentação, regressava-lhe tudo o que fora dito à medida que se aproximavam do cemitério, o som da voz, o rosto sério e muito belo, a cor dos olhos que oscilava entre um verde escuro e um castanho sombrio, as mãos que dançavam ao ritmo das palavras, a sintaxe tão perfeita que ana B. Se distraía, escandindo frases em vez de as anotar, e novamente Leibniz, não o matemático, não o da construção do mundo com as suas mónadas perfeitas, pontinhos vagueando no universo, reflectora de luz, não, não, antes e sempre o da invenção de um alfabeto universal, de uma língua cultural e politicamente neutra, que permitisse ao homem ser livre, sujeito em vez de objecto da História, num mundo onde reinaria a pluralidade de perspectivas.”

“(…) a literatura só persiste porque reescreve, revolucionariamente, não só o mundo em que vivemos como tudo o que já antes foi escrito.”

“Nada há de radicalmente novo na história dos homens que fazem a literatura ou na da literatura feita pelos homens.”

Sinopse:

“A realidade é muito mais inverosímil do que a ficção, diz, a certa altura, uma das personagens deste romance. O aqui narrado parte da concepção fantasmática de um génio, uma espécie de mundo de ficção científica, com dois universos paralelos habitados por mónadas, essas substâncias simples, esses pontos metafísicos, essas individualizações infinitamente pequenas, como quartos sem portas nem janelas dentro de uma pirâmide cuja base tenderia ao infinito, onde bastaria uma ínfima coisa para passar de uma realidade para outra, e onde cada um de nós vê o seu duplo e pode escolher entre ser herói ou banal, amar ou resignar-se, sentir prazer ou raiva com a felicidade alheia, lutar pela liberdade ou jogar as regras do jogo, viver com dignidade ou ser passivo, aceitar a ignomínia ou revoltar-se, julgar o outro pondo-se no lugar dele, adoptar muitas perspectivas para perceber o todo, perguntar-se em que é que a ficção supera a realidade, se na beleza ou na construção não tão utópica quanto poderia parecer do melhor dos mundos possíveis.”

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