A Fera na Selva, de Henry James

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Todos temos feras à espreita na selva das nossas vidas. Basta para tal que nos embrenhemos demais em nós mesmos e ela ataca.

A “fera” exulta com o nosso egocentrismo e narcisismo. Todos somos tomados por estes dois estados, de quando em quando…ou sempre!

Imbuídos dos nossos próprios temores, desejos, sonhos, fantasias, teimosias, somos capazes de só conseguir olhar para o espelho, e para a nossa própria imagem nele reflectida, e nos tomarmos de um enlevamento por essa imagem. Não conseguindo despegar o olhar dessa imagem, não conseguimos ver o que nos rodeia, quem nos rodeia e, nem sequer, o que nos liga aos outros e ao que eles representam para nós. Muito menos conseguimos ver, entender, conceber, os desejos, necessidades, sentimentos, dos que nos cercam seja a que título for.

Pior! Achamo-nos diferentes, merecedores de tudo o que nos chega, e queremos sempre mais.

É o ataque da fera! Ela exulta quando nos vê à beira do riacho olhando o nosso reflexo na água e…captura-nos. Talvez para sempre.

Foi assim que ela atacou John Marcher, quando ele, muito jovem, se achou destinado para altos desígnios. Desconhecia quais, mas passou toda uma vida à espera do “momento” em que por fim saberia o que lhe estava destinado.

E disso mesmo convenceu May Bartram, a delicada e terna amiga (só amiga!), com quem partilhou a “tal” convicção e que se ofereceu para esperar com ele por esse grandioso momento. May, olhava a sua fera de frente! E, apoiando o seu sempre amigo Marcher por toda uma vida, nunca conseguiu dar um passo para que ele visse que o momento chegara há anos atrás, quando a conhecera, e que a fera o tinha atacado, interpondo-se entre ambos.

Não terá sido May, também ela, vítima de uma fera, talvez menos possante mas igualmente poderosa? A fera da passividade, da contenção demasiada, do conformismo? É mesmo difícil contornar os ataques mais ou menos implacáveis de tão manhoso bicharoco, que trazem sempre consequências devastadoras.

Creio que James, através desta história de um amor contido pelo dito bicho, nos alerta para a necessidade de estarmos atentos e olharmos com atenção para os nossos defeitos, nomeadamente o egoísmo e egocentrismo, que nos afastam do que é realmente importante nas nossas vidas e nos faria felizes, seja a solidariedade, o amor incondicional, a abnegação, a bondade, a dádiva. E isto aplica-se a tudo!

Sim, conhecemos muitas pessoas atacadas pela “fera” e a quem ela vence sem grande esforço. Nós, inclusive.

Mas podemos todos combatê-la, ficando atentos ao mais pequeno dos seus passos silentes. Olhando-a nos olhos e afugentando-a, pois ela cede ao nosso olhar e atenção, que devem ser constantes. E assim construiremos um mundo melhor, para nós e para todos.

Henry James nasceu nos EUA, a 15 de Abril de 1843 e veio a falecer em Londres, a 28 de Fevereiro de 1916. Adoptou a nacionalidade inglesa, tendo aí vivido mais de 40 anos.

“Não incomodava vivalma com a estranheza de ter de conhecer um homem assombrado., embora por vezes quase cedesse à tentação, especialmente quando ouvia as pessoas dizer que se sentiam muito “inquietas”. Se elas se sentissem tão inquietas quanto ele, ele que nunca tivera uma hora de quietude na vida, saberiam entendê-lo. Mas não lhe competia a ele inquietá-las mais e, portanto, ouvia-as educadamente. Era por isso que tinha tão boas maneiras, embora algo sensaboronas, e era sobretudo por isso que se considerara, num mundo dominado pela ganância, como alguém bastante altruísta – e até talvez quase um bocadinho sublime.”

E, portanto, enquanto envelheciam juntos, ela esperou com ele, e ele deixou que fosse esta associação a dar forma e cor à existência dela. Também em May, sob a capa dos papéis sociais, a indiferença aprendera a instalar-se e o comportamento em sociedade se tornara numa imagem falsa de si própria. Havia uma única imagem de si que corresponderia à verdade ao longo de todo aquele tempo, uma imagem que ela não poderia revelar a ninguém, muito menos a John Marcher. Toda a sua atitude era na prática uma declaração, mas a ele essa percepção passava-lhe ao lado – era apenas uma das muitas que empurrava para fora da consciência.”

 “A saída teria sido amá-la; então, só então, teria vivido.”

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