“Eu confesso” de Jaume Cabré

Eu confesso

“A história humana não tem sido uma batalha do bem a tentar vencer o mal. A história humana é a batalha do grande mal a tentar triturar a semente do humanismo. Mas, se o humano não foi morto no homem, mesmo hoje, o mal será incapaz de vencer. (…) Perante ela (a bondade), o mal é impotente. Ela, o amor cego e mudo é o sentido do homem.”

Vassili Grossman in “Vida e Destino”

Livro acabado, livro começado. Costuma ser assim. Depois deste “Eu confesso”, não; ficou-me uma sensação de deslumbramento reverente por este romance magnífico, um silêncio espantado e a certeza de não conseguir traduzir em palavras tudo o que a sua leitura me proporcionou. Tanto a narrativa como a estrutura são absolutamente brilhantes; a última, invulgar e intrincada, obriga o leitor a manter uma atenção constante mas nunca penosa. Apesar da sua grande extensão, a escrita fantástica de Jaume Cabré mantém-nos embrenhados de boa vontade e sempre com prazer num percurso fabuloso e gerador de inúmeras perguntas. Estas não são de modo nenhum originais; afinal, convivem connosco desde que há registos escritos: o sentido da existência, a arte como forma de o tentar encontrar ou explicar, o amor, e sobretudo, o mal e a culpa. Tanto o mal pequenino das nossas falhas banais e quotidianas, das pequenas mentiras e fraquezas de todos os seres humanos quanto o grande Mal, o mal absoluto, catastrófico, expoente da crueldade e desumanidade são aqui abordados de uma forma incrivelmente acutilante, bela e inteligente. Tudo isto através da história de Adrià, da sua família e de um violino excepcional, fulcral em todo o livro, pretexto usado pelo autor para criar “saltos quânticos” no “espaço-tempo” da narrativa, criando assim a tal estrutura incomum que se sente como um jogo, um puzzle, em que mergulhamos e que abandonamos, relutantemente, no seu final.

“Eu confesso” é uma obra excepcional. Creio que esta foi apenas uma  primeira leitura; se há livros que merecem ser relidos, este é, de certeza, um deles.

Um desabafo final: um enorme obrigado à editora Tinta da China por não ter seguido a grafia do Novo Acordo Ortográfico!

Excertos:

“ Não te fies em mim. Sei que neste género tão propenso à mentira, como é o das memórias escritas para um único leitor, tenderei sempre a cair de quatro patas no chão, como os gatos: mas vou fazer um esforço para não inventar muito. Tudo se passou assim e ainda pior.”

“O primeiro grão de areia é uma farpa no olho; depois passa a ser um incómodo nos dedos, um ardor na barriga, uma pequena protuberância no bolso e, com um bocadinho de azar, acaba por se transformar numa lousa que pesa na consciência. Tudo, na vida e nas narrações, começa assim, querida Sara, com um inofensivo grão de areia que passa despercebido.”

“(…)Depois de Auschwitz, depois dos numerosos notáveis do reino, depois do extermínio dos cátaros – não deixaram nenhum à face da terra -, depois das matanças em todas as épocas e no mundo inteiro…Há tantos séculos que a crueldade está presente que a história da humanidade devia ser a história da impossibilidade da poesia “depois de”. Contudo, não foi assim, porque que poderia explicar precisamente Auschwitz?
– Os que passaram por lá. Os que o criaram. Os especialistas no tema.
– Pois sim. Haverá registo de tudo isso; fizeram museus para preservar a memória. Mas falta uma coisa: a verdade da experiência vivida; isso não pode ser transmitido através de um estudo.
(…) – Só pode ser transmitida através da arte; do artifício literário, que é a maior aproximação à experiência vivida.
(…) – Pois é. A poesia é, mais do que nunca, necessária depois de Auschwitz.”

“Que a obra de arte nasce da insatisfação. Que de barriga cheia, não se faz arte: faz-se a sesta.”

“Somos uma comunidade que habita numa rocha que navega no espaço, como se estivéssemos sempre à procura de Deus no meio da neblina.”

“Não sei onde reside o mal e não sei explicar a minha perplexidade agnóstica. Careço dos recursos de um filósofo para seguir o itinerário. Insisto em procurar o lugar onde reside o mal e sei que não se encontra no interior de uma pessoa. Estará no interior de muitas pessoas? Será o mal fruto de uma vontade humana perversa? Ou será que provém, tal como acreditava o pobre Mathias Alpaerts de olhos chorosos, provém do Diabo, que inocula pessoas que considera adequadas. O pior é que o Diabo não existe. E Deus, como é? O Deus severo de Abraão, o Deus inexplicável de Jesus, Alá o cruel e terno…Que perguntem ás vítimas de qualquer perverso atentado. Se Deus existisse, a sua frieza perante as consequências do mal seria escandalosa.”

“A realidade oculta das coisas e da vida só pode ser decifrada por aproximação, com a ajuda da obra de arte, mesmo que esta seja incompreensível. (…) No poema enigmático ecoa a voz do conflito resolvido.”

“ No lar de Collserola, perto da minha querida cidade de Barcelona, irão cuidar do meu corpo quando eu já tiver viajado para um mundo que não sei se será de trevas. Garantem-me que não vou sentir a falta de nenhum livro. Não deixa de ser irónico ter passado a vida toda tentando ser responsável pelos meus actos; a vida toda carregando às costas a minha culpa, muitas culpas, e as de toda a humanidade, para acabar por me ir embora sem sequer saber que me vou. Adeus, Adrià. Despeço-me já de mim mesmo , por precaução.”

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7 pensamentos sobre ““Eu confesso” de Jaume Cabré

  1. Tb escrevi este no meu caderninho, fiquei com muita curiosidade de o ler qd te ouvi falar dele e mais ainda depois de ler este teu texto. Tanto livro tão pouco tempo …

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