«Uma menina está perdida no seu século à procura do pai», de Gonçalo M. Tavares :: Opinião

“- Não vale a pena grandes rodeios – disse-nos -, no limite é o nosso peso que está em jogo, é ele que temos de carregar para um lado e para o outro. Quando temos de fugir, podemos ter tempo para pegar num ou noutro objecto, mas tal é raro. (…) Pego nas minhas coisas ou não? Não! No fim, no limite, a decisão é sempre a mesma: não pegamos em nada (…)”

GMT

Uma menina perdida, um homem que não era um falador e um outro que tinha tanto para dizer. Entre outros. Todos eles formam um todo bastante fragmentado, como uma perspectiva dissociada da realidade, mas virada para entender essa mesma realidade… partem em busca de algo. Buscam o pai, buscam a verdade, buscam o outro, buscam um futuro… procuram tudo e não sei se chegam a encontrar algo.

Encontram-se uns aos outros e na medida do possível olham-se, percebem-se e tentam praticar a ajuda como podem.

Será este romance uma lição de como, se pararmos e nos libertarmos de certas amarras sociais, poderemos compreender melhor o outro!?

Terminei a leitura faz já algum tempo, não parti logo para escrever por falta de algo, faltava-me algo para esmiuçar, mastigar, ordenar a história na minha cabeça. Parti em busca de maior entendimento. Fui ouvir o escritor. Interessei-me pelas palavras do Gonçalo, aquelas que li e depois as que ouvi. Ficou a faltar-me algo na mesma, continuará sempre a faltar. É um livro feito por camadas, por sensações, emoções, entendimentos para a realidade que foge de nós, mas nos aproxima dos outros. E sem querer já me repeti, repetirei-me sempre…falta-me algo, não faltará a todos?

É nessa falta tão grande que se encaixa tamanho título, algo pesado como um século, algo profundo como a procura por alguém que não nos devia perder nunca, o pai. Quem é o pai? O que foi… onde estará? Que metáfora encara este pai fictício? A Humanidade!?

Os livros do Gonçalo M. Tavares (GMT), parece-me a mim, trazem sempre mais perguntas do que respostas que sosseguem o leitor. O leitor merece ser inquietado, desafiado, testado, posto à prova, relembrando-lhe o seu papel de pensador, de agitador de conversas.

Neste, «Uma menina está perdida no seu século à procura do pai» somos agitados por todas as personagens que vão compondo o caminho de Marius e Hanna, o homem pouco falador e a menina perdida, Joseph, Fried, Vitrius, Moebius ou Josh todos têm características impressionantes e quase surrealistas que levarão o leitor a tentar descobrir a mensagem nas entrelinhas… porque sobrará tanto mundo para uns e faltará tanto a outros?

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