«A História Secreta» de Donna Tartt :: Opinião

Donna Tartt escreve com mestria aquele que podia ser um relato, qual tragédia grega, do peso do remorso perante a morte, intencional e provocada, como solução para cobrir outro acto criminoso.

Contrariando a tragédia grega que culmina na Morte, Tartt expõe a morte desde o início. A morte e os criminosos.
Profundamente detalhado e incisivo, altamente descritivo, tanto das personagens, como das próprias cenas que acompanham o enredo, este é um relato melancólico da húbris de vidas singulares e elitistas que elegem a cultura e a mentalidade grega clássica como força motriz que os une e também separa este grupo de jovens.
Henry, Richard, Charles, Camila, Francis e Bunny são todos estudantes do classicismo grego, aliás, há, em alguns deles, um fascínio e um vício pela cultura e a língua da Grécia Antiga, caída em desuso, mas que eles consideram como motivação para estudarem e olharem à sociedade que os excluí. Excluí talvez seja forte, mas a meu ver, é tanto a exclusão e crítica de quem não os aceita, tanto quanto o desejo deles próprios em excluídos, marcarem a diferença… o grupo secreto.

“É aqui que os manequins articulados com quem travei conhecimento começam a bocejar e a espreguiçar-se, a ganhar vida própria.”

«História Secreta» lê-se como um page turner, curiosamente lento e de largas descrições, incisivas e (quase) ociosas que transportam o leitor entre a acção e todos cenários que a autora vai criando, dando pouco espaço para imaginações e divagações pessoais do leitor. Há uma demora a cada acontecimento ou até em divagações, mas o ritmo de thriller é obrigatoriamente imposto pelo brilhantismo da escrita.

“O céu estava vazio e frio. Uma nesga de lua, como o crescente da unha de um polegar, flutuava na penumbra. Eu não estava habituado a estes temerosos crepúsculos outonais, nem ao frio nem a dias tão curtos. As noites caíam demasiado abruptas e a quietude que se abateu sobre o prado escuro encheu-me de uma tristeza estranha e vacilante.”

As primeiras 200 páginas são lidas a um ritmo avassalador, mas a acção é retardada e mesmos os primeiros detalhes que podem revelar esta história secretasão dados de forma muito controlada.

“Fomos habituados a pensar no êxtase religioso como algo característico e exclusivo das sociedades primitivas (…) Sabem que os gregos não eram muito diferentes de nós. Eram um povo muito formal, extraordinariamente civilizados e um tanto reprimidos. E no entanto eram não raras as vezes arrebatados en massepelos desejos mais selvagens” (…) Todos os povos verdadeiramente civilizados (…) se cultivaram através da repressão do eu animal que persiste dentro de nós.”
Mal saberíamos nós que esta aula sobre “perder o controlo” seria decisiva no decurso de toda a história.

Hampden, Vermont é o palco dos acontecimentos, uma escola de elite onde encontramos Julian Morrow, um professor erudito, carismático e manipulador, pelo menos, é desta forma que as suspeitas iniciais se levantam e queremos ver nele um mentor, formatando e moldando os jovens alunos, mas lentamente vamos percebendo que não. Tal como os seis jovens se vão revelando muito menos sofisticados e originais comparativamente às suas discussões e preocupações filosóficas, éticas e morais e nas suas divagações de estudo, onde, detalhadamente, se explicam a língua e a mitologia da Grécia Antiga.

As divagações dão lugar a alucinações e orgias, apelando aos rituais ancestrais, abuso de álcool, sexo e drogas e dito assim a originalidade esperada no enredo é quebrada e cai consigo parte do brilhantismo da escrita, já que a história, a meu ver, se torna banal. Esperei até ao último momento, ansiando até que o epílogo revelasse um mentor, até ali quase escondido, num personagem tóxico e destrutivo que tivesse de forma dissimulada manipulado, drogado e fornicado o seu grupo restrito de alunos, mantendo-os fieis a si e às suas dementes decisões, mas não…

Ocorrem-me palavras como displicência, melancolia, prazer, ironia, leviano ou vazio que esbarram em brilhante, intrigante, cúmplice, sinistro, como formas de descrever a história dentro da história, ou seja, uma história é aquela que a linguagem de Donna Tartt cria, iludindo o leitor da quezilenta relação entre os jovens, esperando um enredo à altura da linguagem, mas a história secreta entre eles roça o banal e faz desmoronar toda a expectativa que criámos para personagens, aparentemente, tão inteligentes, elitistas e inicialmente interessantes.

“(…) pelo que as impressões do crime estão indelevelmente gravadas nos meus nervos ópticos, mas estranhamente ausentes do meu coração.”

As inquietudes juvenis tomam assim o lugar da eloquência e alguns dos elementos sentem-se transtornados e afectados pelos actos de outros membros do grupo, perdendo valores gregos que tanto defendiam, como a obediência, a lealdade ou a arte e beleza, abraçando assim o desespero, a frieza e a desconfiança levando-os a todos a atitudes de limite perante a fatalidade.

*

No pouco que li sobre Donna Tartt, a certa parte ela afirma que o processo de escrita nem lhe é muito prazeroso, ora… visto que ela leva cerca de 10 anos a escrever cada livro e é detalhada desta forma e com este nível de informação, imaginem se escrever lhe desse prazer!? 😉
Apreciei muito a sua escrita e a forma de caracterizar e conduzir a história, mas o conteúdo fulcral do enredo torna-se banal e visto, talvez não tão visto em 1992, mas até 2015 quantos não são os livros que espelham a frivolidade, a ociosidade e o desbragado perfil dos jovens!?

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