«Arquipélago» de Joel Neto :: Opinião

“As janelas descascavam ao sabor dos elementos, e nos recantos teias urdidas por aranhas que há muito tinham morrido, mas continuavam a acumular presas. Grossas trancas de madeira inclinavam-se nos vãos das janelas, as portadas abertas cada uma à sua maneira (…)”

É ao sabor das memórias e das tradições que a narrador desconstrói a história de duas famílias, os Drumonde e os Silveira-Goulart juntamente com um leque de personagens de vários lugarejos na Terceira, Açores. Um homem, refém das suas próprias teias, retorna à casa que o viu nascer e vê-se trancado em segredos obscuros que o levam a uma busca incessante nas profundezas da culpa.

«Arquipélago» é um romance com contornes de clássico, basta que comece com uma tábua de personagens. Nada mais, nada menos. As famílias são-nos apresentadas deixando cedo a perceber o intrincado enredo que vai aportar juntamente com José Artur Drumonde. Com ele e com a sua culpa.

José Artur não navega a sós na culpa e nos ecos do passado, são mais os que vivem ancorados aos segredos e mistérios do passado. Basta isto para que se perceba que este romance encerra em si, até bem quase às últimas páginas, mistérios e mortes por deslindar.

Desenvencilhando-se mal sozinho, José Artur procura abrigo na casa de Luísa Bretão e logo aí recomeça para si uma nova geografia dos afectos, mas outra geografia mais agreste e escarpada lhe pesa nas decisões e lhe ocupa os dias e os pensamentos. A descoberta de um cadáver na casa de família arranca-o da melancolia e fá-lo abraçar uma epopeia de perseguir os culpados e se cruzar com os mitos mais esotéricos e pagãos da ilha.

O misticismo não é novidade nenhuma na vida deste professor, há muito que segue a máxima:

“O homem culto acredita. O ignorante, sim, desconfia.”

José Artur acreditava na inexplicável ligação dos Açores ao enigma da Atlântida, aliás fora essa a justificação que o levou a abandonar Lisboa, a ex-mulher e o filho e abraçar de volta as gentes de onde era oriundo.

Entre sugestões do seu subconsciente e outras muito reais, a vida de José Artur, Luísa, Maria Rosa, Elisabete, Elias Mão-de-Ferro, Roque Dutra, Violeta Berquó, Jácome, o Chefe Toste, o Dr. Torcato Salvaterra, Deodato Silveira-Goulart e claro, José Guilherme e André Drumonde, vão-se misturando e formando um enorme romance à moda antiga com paixões, traições e rivalidades familiares, hierarquias antigas e lutas quase territoriais, prestando sempre homenagem aos Açores na sua essência.

Joel Neto, também ele açoriano, tem aqui a oportunidade, a medida e o tom para trazer até ao leitor os Açores desde perto de 1980 até aos dias de hoje, prestando-lhe uma ode às gentes, aos costumes, aos dialectos e aos vocabulários, juntamente com um enumerar de localizações, facilmente reconhecidos quando abrimos o mapa e vemos o lugar dos Dois Caminhos, Terra Chã, o desfiladeiro dos Três Cantos ou a zona da Serreta e até o areal da praia da Vitória, ajudando o leitor a situar as aventuras.
As descrições são ainda enriquecidas com sugestões gastronómicas, tradições ancestrais e património intocável que persiste ao longos dos séculos, como é o caso do dialecto, que não é mais do que um português muito antigo 😉

Comer uma cracas, tomar um licor de ananás, celebrar o menino mija, falar umapisca, falando dos maraus entre uns calezins, são expressões comuns açorianas, tal como chamar pechinchins e ainda se usar boceta de rapé.

Joel Neto cria um romance com uma boa dose de mistério, onde não falta roteiro turístico, uma pitada de esoterismo e o reavivar de tradições. A típica luta do Bem contra o Mal e a vitória final do amor sobre a traição, a mágoa e fúria que consome os homens quando a culpa os atormenta. Um livro para muitos públicos, mas essencialmente para quem vibra com uma história de amor ou então para quem, como eu, foi procurar conhecer e entranhar-se no ambiente dos Açores.

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